
Passo o 7 de setembro ao telefone. Escutando a voz de Minas. Faz bem ouvi-la em tempos de inquietação política no país. Sentir seu tom grave como a sonoridade do órgão de tubos Arp Schnitger, enviado pelo rei de Portugal Dom João V à Sé de Mariana, em 1748.
Meu oráculo é um sábio, o ex-deputado Carlos Eloy Carvalho Guimarães. Ex-presidente da Arena e da Cemig. Manso e aberto a conversar com os adversários, o político de Pompéu, aos 91 anos de idade, é minha enciclopédia de ouvido.
Ele relembra fatos. Narra episódios. Calado, tiro conclusões.
Quando querem, os mineiros sobem aos píncaros da coragem e do atrevimento.
Juscelino Kubitschek, que veio de Diamantina, desabafou, certa vez, em reação à ferocidade da oposição: “Deus poupou-me do sentimento do medo”.
O bravo presidente – fico pensando – herdou a altivez de sua conterrânea Chica da Silva (1731-1796), uma das mulheres mais desaforadas da história do Brasil.
A ex-escravizada acaba de ganhar, em ópera, a exaltação dos três corpos artísticos do Palácio das Artes – a Orquestra Sinfônica, o Coral Lírico e a Companhia de Dança. Os espetáculos estendem-se pelo mês de setembro.
Chica internou as seis filhas no Mosteiro de Macaúbas, em Santa Luzia, para receberem uma educação refinada.
Só para contrariar a elite branca.
O Contratador de Diamantes João Fernandes de Oliveira, pai de seus 13 filhos, fez-lhe todos os caprichos. Até mudou o local da torre da igreja do Carmo. Tirou-a da entrada e construiu-a no fundo, atrás da sacristia. Para os sinos não perturbarem a alvorada da amada.
Mineiro sabe pisar no calo dos adversários.
Além de JK, a UDN martirizou o governador Benedito Valadares, também do PSD.
Os udenistas debochavam dele. Acusavam-no de apreciar umas biritas. Diziam que de tanto cuspir lá de cima do balcão da fachada, nasceu um pé de cana no jardim do Palácio da Liberdade.
Calúnia. Valadares era abstêmio.
Sóbrio, mas desaforado.
Eleito deputado estadual pela UDN em 1961, aos 26 anos de idade, o advogado Carlos Eloy Carvalho Guimarães recorda-se do mandachuva originário de Pará de Minas, imposto por Getúlio Vargas como interventor de Minas Gerais em 1933.
Eloy é neto de Jacinto Caetano da Silva Guimarães, o “Cintinho”, nomeado prefeito de Pitangui por Valadares.
Jacinto nasceu em 6 de março de 1883, em Dores do Indaiá. Casou-se com Francisca Campos Guimarães, irmã do jurista Chico Campos, ideólogo do Estado Novo, e trineta de outra mulher que ilumina nossa história, a irrequieta Joaquina de Pompéu.
Por anos, o avô chefiou a prefeitura de Pitangui, cidade reconhecida pela tradição aurífera. Terra de cabeças modernistas, como o ministro da Educação Gustavo Capanema e o cartunista Borjalo. O poeta Murilo Mendes também morou lá.
Seu mandato, de 1928 a 1941, ganhou prorrogações em decretos amigáveis do interventor. Até que o prefeito resolveu deixar o cargo. Iria ocupar posição mais relevante, a chefia do Tesouro, na Secretaria da Fazenda encabeçada por Ovídio de Abreu, em 1941.
Cintinho solicitou audiência ao governador. Queria agradecer. Era-lhe grato por anos de demonstração de confiança e apreço. No salão dourado do Palácio da Liberdade, o prefeito comunicou ao governador a renúncia à prefeitura.
– Então, vou nomear seu sucessor – afirmou o chefão de Minas.
– O senhor pode nomear, mas quem indica sou eu – disse Cintinho, insolente.
Benedito não gostou. “O mal-educado levantou-se. Virou as costas a seu velho correligionário. E, sem uma palavra, abandonou a sala” – contou-me Carlos Eloy, em registro memorial.
“Ele era atrevido” – disse-me. Bicudo, como seu padrinho, o mandão de Pitangui saiu de cena. Assumiu o novo cargo na Fazenda. Viveu até os 101 anos. Nunca mais cumprimentou Benedito Valadares.
Nada, porém, se compara ao irmão do escritor Lúcio Cardoso (Crônica da Casa Assassinada), celebrado em artigo do ex-presidente José Sarney, militante da UDN e da Arena, no site Metrópoles, do jornalista Ricardo Noblat e reproduzido pela Academia Brasileira de Letras.
Leio Sarney desde os tempos em que foi ridicularizado por Millor Fernandes, em crítica jocosa ao livro de poemas “Os Marimbondos de Fogo”, publicado em 1978.
Revejo Sarney ovacionado na convenção do PMDB que o aprovou como vice de Tancredo Neves na chapa presidencial contra Paulo Maluf, o candidato governista na sucessão do general presidente João Figueiredo.
Eu estava em Brasília. Era 12 de agosto de 1984.
O congresso em festas. Quando introduziram Sarney no plenário da Câmara dos Deputados, o auditório entrou em êxtase democrático. Exclamava, ao som dos atabaques:
Rei, rei, rei.
Sarney é nosso rei.
Tancredo disse-me depois:
“Pedi ao pessoal do MR-8 para não agredir o Sarney. Mas, não precisava exagerar”.
Sarney conta que em 1966, o deputado Adauto Lúcio Cardoso, eleito presidente da Câmara, avisou ao marechal Castello Branco que não aceitaria cassações parlamentares. Renunciaria. O presidente desrespeitou o compromisso. Soltou lista de cassados com os nomes de quatro deputados federais.
Adauto Lúcio Cardoso, nascido em Curvelo em 24 de dezembro de 1904, renunciou ao mandato de presidente da Câmara dos Deputados.
Mesmo assim, Adauto foi distinguido por Castello Branco com a indicação para ministro do Supremo Tribunal Federal.
No governo Médici, a ditadura estabeleceu como constitucional a censura prévia a livros e jornais. O país vivia os tempos arrochados de 1971. Adauto discordou. O caso foi a voto em plenário no STF. O juiz mineiro saiu vencido.
José Sarney escreveu:
“Adauto levantou-se, tirou a toga, enrolou-a, colocou-a sobre sua cadeira e deixou o Supremo Tribunal Federal! Jamais voltou.
Esse era Adauto Lúcio Cardoso”.
Um mineiro desaforado.
Vi que. mais tarde, o ministro Evandro Lins e Silva, um dos fundadores do Partido Socialista Brasileiro e aposentado do STF pelo AI-5, declarou:
“A atitude do ministro Adauto Lúcio Cardoso foi única, continua única, e provavelmente nunca se repetirá”.
J.D. Vital foi repórter de O Estado de S. Paulo



