
Há amizades que passam tanto tempo por perto que acabam adquirindo certos privilégios da família. Aparecem nas fotografias, conhecem histórias antigas, lembram episódios que os próprios protagonistas esqueceram e atravessam décadas sem pedir licença.
O curioso é que algumas descobertas chegam sem anúncio prévio. Ninguém está procurando nada. Basta uma conversa sobre o Rio, uma lembrança das Gerais, um nome citado ao acaso. Outro nome responde. Um sobrenome acena do outro lado da mesa. E o acaso, que adora levar crédito por trabalhos que executa há anos, deixa escapar mais uma pista.
A vida já havia feito sua parte no espetáculo. Levou uns para longe, trouxe outros para a perto, espalhou gente por fusos horários diferentes e até oceanos respeitáveis. Tudo muito moderno, internacional e aparentemente distante. Mas certas ligações têm o hábito elegante de ignorar a geografia.
Quando as peças começam a se encaixar, acontece algo raro: ninguém parece surpreso o suficiente. Como se a notícia apenas desse nome a uma sensação antiga. As crianças seguem correndo, indiferentes aos detalhes genealógicos. Os adultos trocam histórias, lembranças e risadas. E alguém percebe que aquelas conversas têm a familiaridade de quem está se reencontrando e a naturalidade de quem nunca se separou.
Talvez amizade e parentesco sejam apenas departamentos diferentes da mesma repartição. Uma organiza documentos. A outra resolve tudo sem papelada.
No fim, ficou a impressão de que a vida gosta menos de criar coincidências do que de revelá-las. Passa anos costurando encontros, distribuindo pistas e aproximando pessoas sem fazer alarde. Depois, quando finalmente mostra uma parte do desenho, observa em silêncio a reação dos envolvidos.
Como se não bastasse, convenhamos, já eram quase da família havia muito tempo. Só não sabiam porquê.
Raul Filho é Professor, Geógrafo, Doutor em Sociologia da Educação



