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Dois tempos de uma construção (por Vera Helena Castanho)

Li na última semana um texto de Cezar Taurion que me trouxe algumas reflexões. Tecnologia é sua [...]

Li na última semana um texto de Cezar Taurion que me trouxe algumas reflexões. Tecnologia é sua especialidade, mas seus textos frequentemente ultrapassam a dimensão técnica e provocam perguntas sobre a maneira como incorporamos essas transformações à vida, à prática e, muito especialmente, à busca de resultados de trabalho.

Duas palavras ficaram comigo: Capability e Deployability.

De maneira simplificada, Capability diz respeito ao que uma tecnologia é capaz de fazer. Deployability, à possibilidade de transformar essa capacidade em uso efetivo, confiável e consistente no mundo real.

A distinção me parece especialmente importante neste momento.

A velocidade com que novas capacidades tecnológicas surgem é extraordinária. Uma possibilidade anunciada hoje pode superar, em pouco tempo, aquilo que ontem parecia o limite.

Mas capacidade não é ainda resultado.

Entre aquilo que uma tecnologia demonstra poder fazer e aquilo que efetivamente podemos incorporar com confiança à vida, às organizações e às decisões, existe um processo.

Talvez estejamos falando de dois tempos de um mesmo processo de maturação.

Há o tempo da própria tecnologia: testar, corrigir, ganhar precisão, confiabilidade e consistência até que sua capacidade possa produzir resultados sustentáveis no uso real.

E há o tempo humano e organizacional: experimentar, aprender, assimilar, compreender limites e vantagens, desenvolver critérios e incorporar criticamente aquilo que a tecnologia oferece. Ou seja, não apenas aprender uma nova prática, mas internalizar os novos valores e critérios que ela exige.

Esses dois tempos não caminham na mesma velocidade.

Construir é também isso: transformar capacidade em ação, ação em organização e organização, com tempo e maturação, em resultado.

Minha própria trajetória profissional, iniciada na IBM dos anos 70 e atravessando mais de cinco décadas de transformações tecnológicas, talvez me faça olhar com particular interesse para esse intervalo entre o surgimento de uma tecnologia e sua verdadeira incorporação à realidade.

O que mudou radicalmente agora foi a velocidade.

A tecnologia pode acelerar capacidades. Não necessariamente acelera maturidade.

E maturidade, aqui, não significa resistência ao novo ou demora em adotá-lo. Significa o tempo necessário para que potência se transforme em confiança, aprendizagem em discernimento e criticidade em resultados consistentes e com sentido.

A meu ver, é para essa relação que precisamos voltar a atenção: capacidade tecnológica e capacidade humana e organizacional precisam amadurecer na relação entre si.

Porque inovação não se completa quando algo extraordinário se torna possível.

Completa-se quando aquilo que se tornou possível pode ser incorporado à realidade com consciência, confiança e valor sustentável.

Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica

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