
Uma das melhores recordações da passagem da adolescência para a vida adulta foi ter feito o CPOR. O curioso é que, no dia do alistamento militar, fui com dois amigos e nenhum de nós queria servir. Partimos unidos pelo propósito patriótico de escapar da pátria.
O primeiro ficou na moita e se deu bem. Respondia com uma sílaba a qualquer pergunta e não fitava os militares que escolhiam os entrevistados. O segundo elaborou um plano mais ousado: encurvou a coluna e bancou o desengonçado torto. O médico mandava que ele se endireitasse; ele obedecia apenas até onde a fraude permitia e tornava a entortar. Inacreditavelmente, a encenação deu certo. Admirei aquela coragem, embora estivesse certo de que terminaria com algum superior curando a escoliose imaginária por métodos militares.
O detalhe é que nós três jogávamos basquete e tínhamos excelente condição física. Eu tentei seguir a estratégia discreta do primeiro, mas, quando o universo resolve escolher alguém, parece que todos os caminhos convergem justamente para aquele que a pessoa deseja evitar. No meio da multidão, apontaram justamente para mim.
Aprovado no exame físico, fui para a entrevista. Perguntavam se éramos voluntários. A questão trazia uma armadilha. Como tínhamos concluído o terceiro ano do segundo grau, podíamos ser selecionados para o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva. O CPOR formava oficiais R/2 em aproximadamente um ano, permitindo um salto considerável na hierarquia militar.
Segundo nos explicaram, as condições de horário, remuneração e formação seriam bem melhores. Corria o boato de que os voluntários teriam boas chances, enquanto aos demais restaria a tropa, em condições bem menos vantajosas e com chances escassas de se livrar. Diante das alternativas, tomei a decisão mais prudente: jurei que era voluntário e que, desde o berço, sonhava servir à pátria, para delírio do oficial que me entrevistava. Ali mesmo, ele escolheu meu nome de guerra: Campos Sales. “Nome de presidente a gente não deixa passar”, disse.
Voltamos os três no busão lotado. Eu, cabisbaixo; os dois, prestando continência, fazendo ordem unida no banco e rindo da cena em que um cara, a mais de trinta metros, apontou em minha direção e me escolheu. Eu ainda olhara para os lados, numa tentativa desesperada de dar uma de João sem braço. No meu caso, porém, estavam presentes os dois braços, as duas pernas, a coluna reta e nenhum pé chato. Faltou-me a coragem artística de interpretar um corcunda.
Um mês depois, já não estava arrependido. O período inicial era uma ralação, mas havia energia, novidade, desafio e a sensação de participar de algo maior que a própria rotina.
O ano inteiro foi excelente. Naquela época, prestávamos o serviço militar apenas pela manhã para que fosse possível estudar na faculdade à tarde. A remuneração de dois salários mínimos era suficiente para festar e abastecer o Fusca da família, emprestado por meu tio, o que me permitia acordar meia hora mais tarde — ainda antes das seis, para chegar a tempo.
Dei sorte com os colegas e com os instrutores da Artilharia. Encontrar homens como o saudoso capitão Eustáquio no Exército tornou a experiência ainda mais especial. O bom humor e a capacidade nata para instruir sem abusar da hierarquia, como tantos outros menos capacitados faziam, geravam adesão espontânea, sem necessidade de táticas agressivas ou contestáveis. Tenho certeza de que muitos se lembram do “Tolo aquele que não aprende com o erro dos outros”, ou dele dizendo que a hesitação é o mal do homem. Fora a criatividade nas marchinhas durante as corridas.
Os ensinamentos na caserna foram inúmeros: escalada, tiro, topografia, malhação, esportes, estratégia militar, sem mencionar as dicas para a vida. As amizades lá estabelecidas se mostraram duradouras. Muitos continuam meus amigos, apesar dos diferentes rumos, das distâncias e das divergências políticas. Certa tolerância é necessária em tempos polarizados, mas optamos por fazer valer outras qualidades de cada um, que conhecemos bem, e acreditar que, de uma maneira ou de outra, todos pensam no que imaginam ser melhor para o país, ainda que de maneira diferente. Algo resistente às intempéries foi forjado naquela rotina, na qual acordávamos, treinávamos, estudávamos e nos divertíamos em bloco.
A verdade é que, naquela época, um pouco de disciplina me fez muito bem. Precisava andar em compasso com os outros, chegar na hora, cuidar do equipamento, entender o espírito de corpo e descobrir que minhas vontades individuais nem sempre seriam consultadas pelo universo ou pelo comandante. O exercício do xerifado, no qual cada aluno comanda os outros por uma semana, treina até os mais tímidos para a liderança.
Guardamos histórias divertidíssimas. Sempre que nos reencontramos, elas ganham novas versões e pequenas alterações. Aos poucos, a realidade vai virando ficção, embora a essência continue intacta. Décadas depois, ainda rimos dos mesmos episódios com o mesmo entusiasmo — histórias que transformariam este ensaio em pura comédia, mas vou poupá-los dos detalhes.
Devido à boa experiência, durante anos aconselhei qualquer jovem diante do mesmo dilema a encarar o serviço sem medo. Principalmente quando houvesse uma boa chance de fazer o CPOR. Hoje eu já não repetiria o conselho com a mesma facilidade.
O que mudou?
Algo grande e algo pequeno. O mundo e eu.
Ao longo dos anos, fui percebendo que muitos conflitos pouco têm a ver com a defesa da pátria; nascem da ambição estratégica de homens pobres de espírito no comando de grandes exércitos ou do interesse da indústria bélica e de grandes potências. Talvez tudo tenha sido sempre assim, mas a desfaçatez com que alguns líderes mundiais operam hoje em dia merece uma oposição mais firme.
Paralelamente a isso, sempre me identifiquei com o mundo imaginado por John Lennon em Imagine. Sou terráqueo antes de ser nacionalista. Em O Fim da Infância, Arthur C. Clarke retrata a chegada de alienígenas poderosos que encerram guerras, reduzem desigualdades e diminuem a importância das fronteiras. Um mundo capaz de direcionar seus recursos para educação, saúde, ciência e combate à desigualdade se aproxima do meu ideal. Ainda assim, compreendo a necessidade de ajustar esse desejo ao tempo em que vivemos, enquanto se luta pelas lentas transformações necessárias para alcançar essa harmonia global.
Depois do trauma da Segunda Guerra, construiu-se uma ordem internacional destinada, entre outras coisas, a conter a escalada das hostilidades. Os conflitos nunca deixaram de existir. Durante a Guerra Fria, as guerras por procuração se multiplicaram, alimentadas pela disputa entre potências e pelo interesse econômico em desovar armamentos com data de validade quase vencida pelo avanço tecnológico. Ainda assim, manteve-se viva a ideia de que mesmo as nações mais poderosas precisavam, ao menos, justificar seus atos diante de alguma ordem comum.
Atualmente, existe um perigoso menosprezo por esses limites. A força bruta voltou a ocupar um espaço que julgávamos interditado. As crises econômicas alimentam ideologias radicais. A brasa do fascismo reascendeu, e a expansão territorial voltou a ser considerada comum. Os EUA conseguem ameaçar até aliados como o Canadá, e Moscou ataca a própria mãe, Kiev. Tudo isso gera uma corrida armamentista e radicalização política, com influência global.
É em um mundo assim que ainda se exige dos jovens um comprometimento quase romântico com causas que muitas vezes eles sequer possuem experiência suficiente para compreender. Comandantes-em-chefe podem exigir que meninos arrisquem a própria vida por decisões tomadas muito longe do campo de batalha, quase sempre por homens que não estarão pessoalmente submetidos às mesmas consequências.
Não nego a existência de lutas necessárias. Algumas existem. A questão é justamente saber distingui-las daquelas produzidas pela vaidade, pela ambição ou pelos erros de quem exerce o poder.
Por que, então, aconselhar um jovem a seguir um caminho no qual poderia tornar-se joguete de homens mal-intencionados? Apesar de toda a minha boa experiência, já não consigo recomendar esse caminho com a mesma convicção. A idade me trouxe uma desconfiança tardia da obediência.
Por outro lado, vivemos sob essas condições, independentemente de nossa vontade. É preciso, portanto, analisar também a situação do ponto de vista geopolítico para o nosso país.
Não existe uma guerra brasileira à vista. Ainda assim, conflitos que pareciam confinados aos livros de história voltaram a alterar fronteiras, cadeias de abastecimento, preços de energia e alianças. Ao mesmo tempo, big techs disputam a liderança da IA e acumulam uma capacidade cada vez maior de influenciar indivíduos e sociedades. Nosso tamanho, a distância dos grandes focos de tensão e a tradição diplomática continuam sendo vantagens. Só que já não bastam.
A defesa funciona como o sistema imunológico de uma nação: fraca demais, deixa o organismo exposto; descontrolada, pode voltar-se contra o próprio corpo. Um país preparado talvez evite uma guerra justamente porque torna caro demais atacá-lo. E, hoje, preparo não se resume a armas. Quem não consegue produzir, adaptar ou sequer manter os próprios equipamentos pode descobrir, tarde demais, que sua soberania termina quando acabam as peças ou alguém desliga o sistema. Governos passam. Basta um louco para colocar fogo no parquinho.
Enéas Carneiro, entre outras figuras polêmicas, defendia, inclusive, que o Brasil deveria possuir armas atômicas como instrumento de dissuasão. China, Índia e Paquistão seguiram esse caminho; Israel mantém sua conhecida ambiguidade; a Coreia do Norte assumiu abertamente a condição de potência nuclear. Seu caso talvez ensine algo incômodo: uma vez que um país possui a bomba, até adversários muito mais fortes passam a tratá-lo com enorme cautela. O contraste com a disposição de empregar força contra o Irã não elimina as diferenças entre os dois casos, mas revela quanto uma arma nuclear altera o cálculo de risco.
Há ainda uma contradição difícil de ignorar. Os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança são justamente os cinco Estados reconhecidos pelo Tratado de Não Proliferação como potências nucleares. O regime criado para conter a proliferação acabou também cristalizando uma hierarquia anterior. Talvez seja melhor assim: quanto menos países possuírem essas armas, menor o risco. Imagine-nos, com a qualidade de nossos políticos, administrando um arsenal nuclear. Já temos emoções suficientes com o orçamento público.
Ainda assim, o clube que pede responsabilidade aos demais é formado por países que não abrem mão do próprio arsenal, e as únicas bombas atômicas já utilizadas contra cidades foram lançadas por um de seus membros. Nagasaki, apenas três dias depois de Hiroshima, permanece especialmente controversa. Líderes dessas nações passaram a introduzir cada vez mais em seus discursos a possibilidade do uso. Tudo isso gera a sensação de desigualdade e vinculação à força.
Não proponho, evidentemente, distribuir ogivas por teocracias, regimes instáveis, governos corruptos ou Estados ligados ao terrorismo. Apenas reconheço a contradição de um clube fechado que decide quem pode possuir aquilo de que seus próprios integrantes não pretendem se desfazer.
O Brasil escolheu outro caminho. Nossa própria Constituição determina o uso pacífico da tecnologia nuclear, e não defendo uma ruptura com esse princípio nem a construção de uma bomba. Defendo que não abandonemos o conhecimento que nos permitiria continuar donos de nossas escolhas.
Isso significa manter um programa nuclear avançado, dominar tecnologias espaciais, desenvolver foguetes, drones, satélites e sistemas de defesa e formar continuamente cientistas, engenheiros e técnicos. Desenvolvimento da própria AI e robótica são estratégicos e tudo começa diversificando compras e ampliando benefícios nos contratos. Se algum dia a ordem internacional mudar radicalmente, não podemos estar tão distantes tecnologicamente que qualquer escolha já tenha sido feita por nós. A Huawei mostrou, depois das sanções americanas, quanto investimento e pressão podem acelerar a criação de alternativas próprias e reduzir dependências em poucos anos.
A melhor dissuasão continua sendo aquela que jamais precisa ser utilizada. Na guerra, como no xadrez, muitas vezes a ameaça é mais poderosa que a execução. Podemos continuar pacíficos sem confundir paz com vulnerabilidade.
O mesmo princípio vale para a economia. Durante décadas, commodities ganharam espaço enquanto perdíamos densidade industrial e tecnológica. A Embraer demonstra que somos capazes de produzir e exportar tecnologia avançada; o problema é a distância entre aquilo que já provamos saber fazer e aquilo que sustentamos como projeto nacional.
Precisamos, portanto, deixar de comprar apenas produtos e começar a adquirir capacidade. Grandes contratos deveriam trazer transferência de conhecimento, formação de engenheiros, fornecedores nacionais e autonomia para manutenção e adaptação. Na defesa, diversificar fornecedores também reduz dependências, desde que os sistemas conversem entre si e empresas brasileiras participem efetivamente do processo.
Para isso, a política precisa amadurecer. Parte da esquerda ainda trata a defesa como assunto contaminado e acaba entregando o debate estratégico justamente a quem mais critica. Parte da direita radical tenta transformar a autoridade militar em instrumento político. Fazer da defesa um tabu de um lado e uma ferramenta partidária do outro deixa o país estrategicamente cego e institucionalmente vulnerável. Instituições sólidas não podem depender eternamente da sensatez ocasional de quem esteja no comando.
É possível, portanto, rejeitar o militarismo e defender Forças Armadas preparadas, tecnologicamente autônomas, submetidas à Constituição e conscientes das circunstâncias extremas que poderiam justificar o sacrifício de uma vida.
Quanto ao recrutamento de jovens para as forças armadas, ainda reconheço muito do que vivi no CPOR. O serviço militar pode oferecer disciplina, amizade, preparo e liderança, além da experiência de caminhar em compasso com pessoas diferentes. Para jovens de origem humilde, pode também abrir caminhos de formação profissional e estabilidade.
Mas eu o tornaria voluntário — o que exigiria mudar o modelo atual — e faria o possível para que valesse a pena escolhê-lo. Em tempos de paz, militares podem contribuir, dentro de suas competências constitucionais, com vigilância e logística em fronteiras, presença em regiões remotas, engenharia e formação técnica. Quem passasse pelo serviço poderia sair com certificações profissionais; os melhores e mais vocacionados encontrariam caminhos reais de permanência e progressão. Se o país precisa manter suas Forças Armadas mesmo durante as longas épocas sem guerra, faz sentido que parte desse investimento também produza qualificação e mobilidade social.
Há grande diferença entre o jovem que entrou contrariado no CPOR e o homem que hoje olha para trás. Continuo reconhecendo o valor do que aprendi ali, mas já não acredito que disciplina signifique obediência sem perguntas.
Servir à pátria não equivale a servir cegamente ao governo da ocasião. A pátria é maior que seus governantes e mais duradoura que suas crises.
Nosso hino afirma que o filho teu não foge à luta. Belíssimo. De arrepiar. Mas a frase só se sustenta diante de uma luta digna, necessária à proteção do povo e conduzida por quem assuma, antes de exigir coragem dos outros, a responsabilidade pelas próprias decisões.
Glauco Saraiva é Escritor.



