Põe o preço (por Lidolfo Paoliello)

foi inspecionar os bichos, como fazia todos os dias, e viu uma cena chocante: [...]

Ele andava pendurado em empréstimos de um banco, cujo gerente regional teve de viajar e lhe pediu um favor. A família tinha uns bichinhos de estimação, que era o que havia de mais importante para as crianças. Será que ele poderia tomar conta por uns dias?

Na mesma noite o Fonseca chegou em casa com aquelas caixas de sapato cheias de furinhos, reuniu a família e explicou que se tratava de um tesouro: bichos de estimação do gerente do banco. Não precisou dizer mais nada. Decidiram que era hora de conhecer os hóspedes e foram abrir as caixas. Logo que a mulher do Fonseca meteu a mão na primeira caixa, veio lá de dentro um palavrão, seguido de uma série de outros palavrões. Era o Godofredo, o papagaio do filho do gerente. Logo a avó do Fonseca manifestou-se indignada, dizendo que não moraria sob o mesmo teto com aquela criatura malcriada, e o Fonseca não teve dúvida: colou uma fita isolante no bico do papagaio, até terminarem a inspeção das caixas.

Em seguida apareceu uma tartaruguinha, que eles não chegaram a um acordo se era tartaruga, jabuti ou cágado, assim como brasileiro algum nunca conseguiu saber. Puseram-na no chão e ela logo sumiu debaixo do sofá. Finalmente o Fonseca, com muita cerimônia, anunciou o hóspede mais importante. Era um passarinho, mas não um pássaro qualquer. O Azulão de estimação do gerente, um bicho tão importante que tinha o nome do presidente do banco: Assis Brasil.

Solidários com o chefe da família, para quem o juízo final estava no banco e o gerente era Deus, cada um acariciou e elogiou os bichinhos e, depois de muito palpite, decidiram que o local mais seguro para os acomodar era o banheiro.

Passaram-se os dias, mas não se reduziu o alvoroço da chegada dos bichos. Mais uma vez, esqueceram-se de que a tartaruga estava na banheira e a avó aprontou um escarcéu quando, do meio da espuma de banho, emergiram aqueles olhinhos inocentes. Mas o Godofredo é que era o tormento. A pessoa entrava no banheiro, punha-se à vontade e, de repente, ele despejava os palavrões. Já o Assis Brasil, o Azulão do gerente, era um encanto. Muito bonitinho, penugem brilhante, só que aparentando ser quieto demais, o que era tido como saudade do dono.

Um dia, o Fonseca estava tomando o café da manhã quando seu filho mais velho chegou muito ressabiado, as mãos para trás, pigarreando:

  • Pai, acho que o senhor tem um problema.
  •  

O rapaz havia chegado em casa de madrugada, foi inspecionar os bichos, como fazia todos os dias, e viu uma cena chocante: o Azulão estava caído no chão da gaiola. O Fonseca continuava com a boca aberta e a xícara de café na mão, quando o filho abriu o freezer e tirou de lá, esticado em um pires, o Assis Brasil.

Daí a uns dias, ligaram que o homem tinha chegado. O Fonseca entregou ao gerente a caixa de sapato com o Godofredo, a outra com a tartaruga e encheu o peito:

  • Põe o preço, Amaral! Eu compro o Assis Brasil.

Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O País das Gambiarras, A rebelião das mal-amadas e acaba de lançar, pela Editora Del Rey, A guerra de cada um. Já na Amazon: https://www.amazon.com.br

Compartilhe esse artigo: