Quando o lugar que ocupamos começa a nos ocupar (por Vera Helena Castanho)

A roda de conversa sobre o filme Kagemusha - A Sombra de um Samurai, de Akira Kurosawa, colocou [...]

A roda de conversa sobre o filme Kagemusha – A Sombra de um Samurai, de Akira Kurosawa, colocou diante de mim uma pergunta que permaneceu muito além da conversa: o que acontece conosco quando ocupamos um lugar que originalmente não era nosso?

Produzido em 1980 e vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, Kagemusha nos leva ao Japão do século XVI, em meio a guerras, clãs e disputas de poder.

No centro da história está um pequeno ladrão, condenado à morte, cuja extraordinária semelhança física com Takeda Shingen, poderoso senhor feudal, acaba por salvá-lo.

Quando Shingen morre, sua morte precisa permanecer em segredo para proteger o clã. O ladrão recebe, então, uma tarefa quase impossível: ocupar o seu lugar.

Não basta parecer com ele.

É preciso aprender seus gestos, sua postura, sua maneira de olhar, de receber seus homens, de permanecer em silêncio. Precisa ocupar vínculos que não construiu e sustentar diante dos outros uma identidade que não é a sua.

A princípio, representação.

Depois, alguma coisa começa a mudar.

O homem que representa Shingen para que os outros acreditem que ele continua vivo passa também a ser transformado pelo lugar que ocupa.

E a história atravessa o tempo e a cultura japonesa para alcançar uma questão profundamente humana:

quanto de quem somos nasce de dentro e quanto vai sendo constituído pelos lugares que ocupamos, pelos vínculos que estabelecemos e pelo olhar daqueles que nos reconhecem?

Talvez a pergunta mais inquietante não seja apenas “quem sou eu?”, mas:

o que acontece comigo quando o lugar que ocupo começa também a me ocupar?

Há uma provocação fascinante nessa história.

Shingen está morto. Entretanto, seus homens continuam obedecendo. Seus inimigos continuam cautelosos. O clã permanece protegido pela presença daquele homem que todos acreditam estar diante deles.

Mas aquele homem é outro.

Quem governa, então?

O homem? Seu nome? Sua imagem? O lugar que ocupa? Ou a crença coletiva de que aquele poder continua existindo?

A aparência produz realidade.

Difícil não aproximar essa questão do nosso tempo.

Vivemos cercados por imagens cuidadosamente construídas. Posições, títulos, currículos, fotografias, redes sociais e narrativas sobre quem somos. Nunca tivemos tantos recursos para apresentar uma identidade.

Ao longo da roda de conversa sobre o filme, algumas imagens me chamaram particularmente a atenção.

Uma pequena vela iluminando o ladrão. O vento, o frio, o mar de cor forte e águas revoltas, o som de uma flauta. Elementos da natureza acompanhando uma história construída em torno da ilusão e da aparência.

E há um momento especialmente sugestivo: homens podem ser enganados pela semelhança, mas o cavalo de Shingen estranha aquele que tenta ocupar o lugar de seu dono.

E a ilusão começa a se desfazer.

Mas talvez o mais interessante aconteça justamente aí. Depois de viver como outro, aquele homem já não pode simplesmente retornar ao ponto de onde partiu.

Porque os lugares que ocupamos deixam marcas.

A vida nos modifica. Uma relação nos modifica. A maternidade, a paternidade, a liderança, o amor, uma perda, uma responsabilidade sustentada por anos.

Entramos nesses lugares sendo alguém.

Raramente saímos deles exatamente a mesma pessoa.

O ladrão deveria ser apenas uma sombra. Mas aquela sombra adquiriu vínculos, afetos e pertencimento.

Entre as imagens conversadas na roda de conversa, a do final é particularmente forte: o corpo levado pela correnteza, próximo ao estandarte do clã Takeda.

O poder, o nome, a posição, a representação, tudo aquilo que parecia tão sólido encontra a água.

E passa.

Talvez esteja aí uma das provocações mais contemporâneas de Kagemusha.

Passamos grande parte da vida construindo alguma ideia sobre quem somos. Ocupamos lugares, desempenhamos papéis, recebemos reconhecimento e procuramos alguma permanência.

Mas a vida nos desloca.

Há momentos em que somos chamados a ocupar novos lugares. E há outros em que precisamos deixá-los.

O que permanece de nós depois disso?

Talvez não seja possível separar completamente quem fomos, os papéis que desempenhamos e aquilo em que nos transformamos enquanto os desempenhávamos.

E talvez seja justamente por isso que algumas sombras não desapareçam quando a luz se acende.

Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica

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