Na farmácia do Papa (JD Vital)

Abriram mais uma farmácia em Belo Horizonte. Na rua do Ouro, esquina com a Palmira, na Serra. Soube .[...]

Abriram mais uma farmácia em Belo Horizonte. Na rua do Ouro, esquina com a Palmira, na Serra. Soube que é a 45ª unidade da Droga Raia, fundada em agosto de 1905, em Araraquara – SP, pelo imigrante italiano Giovanni Battista Raia.

Demoliram, sob protestos e alguma fuzarca, o Bar do Salomão, para ceder lugar à nova casa. Porque ali funcionava, sempre lotada, a capela dos atleticanos. O prédio da Raia formatou o mais cosmopolita triângulo da botica. À frente, a Drogaria Araújo, mineira da gema, com 201 filiais, líder no mercado. À esquerda, a Pague Menos, de Fortaleza.

Os atleticanos não deviam reclamar. A farmácia é o Santo Graal da longevidade.

A expansão dos serviços farmacêuticos ressalta mudanças na pirâmide etária da população brasileira, dizem os economistas. É sinal de que a Cidade Vergel envelheceu.  Ela, a Princesinha da República, vinda ao mundo na virada do século 20, caminha para reunir uma coorte de 500 mil matusaléns. Inclusive, eu.

Diz o Portal da Câmara Municipal, citando o censo demográfico 2022 do IBGE, que um em cinco residentes está acima dos 60 anos. Estima-se que do total de 2.415.451 habitantes, 460.962 são contemporâneos daquela noite de outubro de 1966, quando Jair Rodrigues arrepiou o Teatro Record, em São Paulo. Ele entoou, para gravação nas estrelas, Disparada, da dupla Geraldo Vandré e Theo de Barros.

Envelhecer significa entrar na fila da farmácia.

Quando os mineiros decidiram mover a capital de Ouro Preto para Curral del Rei, eles pretendiam “civilizar” os sertões. Os bugres povoavam o interior. Sem assistência à saúde. À mercê de benzedeiras.

A metrópole, erguida do zero, extirparia nosso estigma de capiaus. Aqui não havia nada. Um deserto. Parcamente ocupado por gente da roça, mestiça e negra, que a partir de 1701 se instalou “aos pés da Serra do Curral e no entorno da paróquia de Nossa Senhora da Boa Viagem”. Umas quatro mil almas, calculou o historiador Abílio Barreto, testemunha ocular dos alicerces de construção. (Belo Horizonte: memória histórica e descritiva, FJP)

Nossos ancestrais sobreviviam em terras de latifundiários, confinados em “cafuas de pau-a-pique, cobertas de folhas de sapé ou de pindoba”. Em logradouros tortuosos, tristes e escuros, sem eletricidade. Apenas oito casas “possuíam vidraças e somente duas eram assobradadas”, explica Barreto.

Em 1890, dois anos após a abolição da escravatura, existia somente uma farmácia, atestam as pesquisas do historiador Edelberto Augusto Gomes Lima, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais e especialista na genealogia dos municípios de São Domingos do Prata, Ouro Preto e Sabará, matriz do distrito de Curral del Rei.

O arquiteto português Alfredo Camarate, da Comissão Construtora da Nova Capital, era um desses sortudos com janela à prova de muriçocas e borrachudos. Em uma de suas crônicas, ele descreveu quem encontrou por aqui: “O tipo geral desse povo é doentio. Magros, amarelos, pouco desempenados na maioria; havendo uma grande proporção de defeituosos, aleijados e raquíticos”. As cafuas remetiam Camarate ao que vira na África Ocidental, em suas andanças intercontinentais. (Por montes e vales, Minas Gerais, 1894).

A Araújo surgiu em 1906, sucessora da Pharmácia Mineira estabelecida por Abelardo de Faria Alvim e José Lage Martins da Costa no quarteirão da Praça Rio Branco, defronte à rodoviária. Na casa trabalhava o balconista Modesto Carvalho de Araújo, com 17 anos de idade. Em 1913, o rapaz comprou a empresa dos patrões e alterou seu nome para Drogaria Araújo.

Logo, o torrão caipira, declarado capital de Minas, progrediu. Avenidas largas, bulevares, palacetes, quarteirões simétricos. Sem as ladeiras, o barroco e o mofo de Vila Rica. Os mocambeiros, rotulados de papudos por causa do bócio, foram desalojados das palhoças. Empurrados para fora da avenida do Contorno por desapiedados que construíam, no gueto progressista, o paraíso republicano.

Para demonstrar compromisso com a modernidade, repulsa à monarquia e ao cheiro de esterco de gado, trocaram o nome do arraial para Belo Horizonte. Para desgosto de Machado de Assis, presidente da Academia Brasileira de Letras. O autor dos maiores clássicos da literatura brasileira assim se expressou, com elegância, na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro em 28 de janeiro de 1894:

“Eu, se fosse Minas, mudava-lhe a denominação. Belo Horizonte parece antes uma exclamação que um nome”.

A população crescera de 13.472 habitantes em 1900 para 55.563 em 1920. A taxa de expectativa de vida no período subiu de 31 para 32 anos.

Em 1924, “na jovialidade infantil”, a Cidade Jardim, moderníssima, encantou Mário de Andrade no poema “Noturno de Belo Horizonte”:

Maravilha de milhares de brilhos vidrilhos…

Hoje, perto de completar 129 anos em 12 de dezembro, Belo Horizonte conta com 1.400 farmácias, de acordo com noticiário desatualizado baseado na Receita Federal. Mas não consegue dar um teto aos 16 mil moradores de rua amontoados em barracas de lona preta nas esquinas, sob viadutos e marquises de agências bancárias. Em um acampamento de deserdados, mais vergonhoso que as choupanas do Curral del Rei.

As farmácias superam as igrejas: temos 300 paróquias na região metropolitana, catalogadas pela Arquidiocese; e 102 templos evangélicos em BH, na lista do site Smartscrapers

O Conselho Regional de Farmácia anota 32 mil profissionais em 18 mil estabelecimentos estaduais. A Escola de Farmácia de Ouro Preto, criada em 1839, tem parte nisso. Preparou mais de 12 mil profissionais ao longo de 187 anos, pioneira no Brasil e na América Latina no ensino desvinculado das faculdades de medicina. Maria da Paz de Moura Henriques formou-se lá. Dona Pazinha é avó do padre Eduardo Teixeira Henriques, quedeixou a faculdade de Medicina da UFMG para ser jesuíta.

Implantar farmácias alimenta a volúpia do mercado. Em 2025, o varejo farmacêutico brasileiro faturou R$ 243 bilhões em um crescimento chinês de 10,81 por cento em relação ao ano anterior, segundo os gráficos da Febrafar, que congrega redes e empresas independentes.

De Roma leio a notícia de que a onda boticária atingiu o Vaticano, o menor país do mundo, com 508 moradores. A Farmácia Vaticana, inaugurada em 1874 a pedido do Papa Pio IX como reserva de medicamentos para a corte pontifícia, abriu uma filial fora dos muros de São Pedro. No passado, o Papa governava como monarca os estados pontifícios, rodeado de inimigos na Europa.

Por isso, confiaram aos frades da Ordem Hospitalar de São João de Deus – conhecidos pelos italianos como “Fatebenefratelli” – a missão de garantir, com segurança, o suprimento de remédios e aviar as receitas para o papa, os cardeais e os bispos.

A Parafarmácia nasceu para atender aos milhões de peregrinos e turistas do Jubileu de 2025, explica seu diretor Frei Binish Thomas Mulackal, de origem indiana, da Ordem Hospitalar de São João de Deus, presente também em Minas, em Divinópolis. Está localizada na Praça de São Pedro, a poucos passos da basílica, sob as colunatas, na ala interna do Braccio di Carlo Magno.

A nova loja papal “inclui farmacêuticos e especialistas em cosméticos treinados, prontos para responder perguntas dos clientes e oferecer orientações personalizadas”, assegura Frei Binish. A casa tem estoque de 40 mil produtos e um elogiado sistema de automação. Em oito segundo, robôs entregam as compras à leva dos dois mil frequentadores diários.

O ponto não se limita a vender fármacos. Ela derrama “um suplemento de caridade”, na expressão do Papa Francisco. Compadecida, oferece produtos cobiçados pela natureza humana, mesmo na velhice. Como a disputada coleção de perfumes Bíblia Sagrada, de fragrâncias inspiradas nos presentes dos Reis Magos ao Menino Jesus, em Belém: ouro, incenso, mirra e rosa mística, este em homenagem a Nossa Senhora. O frasco de 100 ml custa 59 euros, cerca de R$ 354,00. 

Na sua próxima viagem à Itália, passe por lá. (www.vaticanstate.va)

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J.D. Vital colabora com o site www.exsecordis.com.br,dos ex-alunos do Seminário Arquidiocesano Coração Eucarístico de Jesus de BH

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