Dores amazônicas (por Luís Giffoni)

A rodovia Transamazônica foi um monumental erro da ditadura militar. Executada sem qualquer [...]

A rodovia Transamazônica foi um monumental erro da ditadura militar. Executada sem qualquer planejamento, a toque de caixa, torrou bilhões de dólares, cortou milhões de árvores, ceifou milhares de vidas, sobretudo de índios. Um desastre econômico, ecológico e humano. Hoje, quem a vê, às vezes intransitável, às vezes abandonada, não imagina quanto esforço e sofrimento ali foram deixados pelos brasileiros que a construíram. Testemunhei a epopeia. Tinha 20 anos quando lá trabalhei, como estagiário de engenharia. A obra, desafio com mais de quatro mil quilômetros de extensão em território desconhecido, oferecia malária, doenças sexuais, desconforto e solidão em troca de um bom salário. A fome ocasional se devia à impossibilidade de trazer comida até o acampamento, por terra ou por ar, devido às tempestades constantes. Certa vez, passei uma semana comendo pêssego em calda com creme de leite, únicos alimentos ainda disponíveis.

Em Belo Monte, onde se construiu a usina hidrelétrica que gera energia e polêmica, botos-cor-de-rosa nadavam nas águas verdes do Xingu ao lado dos tratores que derrubavam a mata. Mognos centenários tombavam sob a sanha de serras e correntes. No acampamento, 300 peões, a maioria com menos de 30 anos, investiam as horas de folga e os dias de chuva no jogo de truco. Além do baralho, sua diversão consistia na visita a dois bordéis sem teto e sem divisórias, chamados Bão Qui Dói e Sombra da Lua. Poucas mulheres os atendiam. Sempre havia fila na entrada e um coro de “anda depressa aí”. As doenças sexualmente transmissíveis só perdiam, em número de casos, para a malária.

De vez em quando, um peão se apaixonava por uma recém-chegada e exigia exclusividade dela, para revolta dos preteridos. Disputas violentas aconteciam e se tornaram a terceira causa de baixas à enfermaria. Testosterona é uma faca de dois gumes no meio do nada. Faz, ao mesmo tempo, heróis e encrenqueiros. Não refreia lágrimas, contudo. Muitos valentões as derramavam ao se lembrar de casa. Saudade derruba qualquer um. Escrevi cartas, em nome deles, para as namoradas em BH, Teresina, Fortaleza. Cartas de amor, de analfabetos ou letrados, raramente escapam do ridículo. As da Transamazônica não foram exceção.

Perto de Belo Monte, numa área que parecia ainda intocada pelo ser humano, Romeu e Julieta surgiram de repente no interior da mata. Um casal morava ali, no meio do nada. Os amantes, com 20 anos de idade, precocemente envelhecidos, sujos, seminus, tinham fugido de Altamira havia alguns anos: o pai da moça não lhes permitira o casamento, pela pouca idade e pouco dinheiro do pretendente. Foram caçados, quase abatidos a tiros, não viram alternativa senão avançar cada vez mais floresta adentro. Perderam o traquejo com o português que, com frequência, soava como grunhido. O rapaz ainda temia a perseguição do sogro inconformado. Não foi fácil a sobrevivência do Romeu e Julieta amazônico.

A Transamazônica deixou histórias que, aos poucos, o tempo apaga. Marcas de amor, dor, solidão e trabalho se vão. Como faz a floresta com a cicatriz que lhe impingimos num momento de delírio de grandeza, com absoluta falta de planejamento. 

Luis Giffoni é Escritor, Membro da Academia Mineira de Letras. Prêmio Jabuti

Luís Giffoni lançou recentemente o romance “Linha de Neve”, que aborda uma aventura nas montanhas dos Andes. Para a compra online: https://www.amazon.com.br

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