
Em 2007, Brian Chesky e Joe Gebbia dividiam um apartamento em São Francisco e enfrentavam um problema bastante comum: precisavam de dinheiro para pagar o aluguel.
Naquele período, uma conferência de design levaria muitos visitantes à cidade e encontrar hospedagem estava difícil. Os dois perceberam uma oportunidade. Sem quartos sobrando, retiraram três colchões infláveis do armário, espalharam-nos pelo apartamento e ofereceram aos visitantes um lugar para dormir e café da manhã.
Nascia o AirBed & Breakfast literalmente, algo como “colchão de ar e café da manhã”. Três pessoas aceitaram a proposta e se tornaram os primeiros hóspedes. Segundo Chesky, o dinheiro obtido naquele fim de semana foi suficiente para ajudar a pagar o aluguel.
A experiência deixou uma ideia na cabeça dos dois: se eles estavam dispostos a abrir a própria casa para desconhecidos, talvez outras pessoas também estivessem. Nathan Blecharczyk juntou-se ao projeto e passou a formar, com Chesky e Gebbia, o trio de cofundadores.
O problema era convencer os outros de que aquilo fazia algum sentido.
Quando Chesky começou a explicar o negócio, muita gente simplesmente não acreditava que estranhos aceitariam dormir na casa de outros estranhos. Ele recorda que, ao apresentar a ideia a uma pessoa, ouviu uma resposta pouco animadora:
“Brian, espero que essa não seja a única ideia em que você esteja trabalhando.”
Não era uma reação isolada. Chesky conta que investidores consideravam a proposta “maluca” justamente porque não acreditavam que desconhecidos confiariam uns nos outros a ponto de compartilhar uma casa.
Em 2008, veio um teste ainda mais duro. Michael Seibel apresentou os fundadores a sete investidores importantes do Vale do Silício. Eles buscavam US$ 150 mil em troca de 10% da empresa, o que avaliava o futuro Airbnb em apenas US$ 1,5 milhão.
Dos sete, cinco recusaram e dois nem responderam. Um dos investidores que rejeitaram a oportunidade argumentou que o mercado potencial não parecia grande o suficiente.
Sem conseguir investimento, os fundadores acumularam dívidas nos cartões de crédito. Chesky relatou que chegaram a cerca de US$ 25 mil em dívidas cada um, até que os cartões deixaram de oferecer mais crédito.
Foi então que recorreram a uma solução tão improvável quanto o próprio negócio. Durante a eleição presidencial americana de 2008, criaram caixas de cereais inspiradas nos candidatos Barack Obama e John McCain: os Obama O’s e Cap’n McCain’s. Vendidas como itens de coleção, as caixas renderam aproximadamente US$ 30 mil e ajudaram a financiar a empresa quando quase ninguém queria investir nela.
Os cereais também acabaram tendo um papel inesperado no futuro da startup. Quando os fundadores apresentaram o Airbnb a Paul Graham, da aceleradora Y Combinator, ele também questionou por que alguém aceitaria ficar na casa de desconhecidos. Mas ficou impressionado com a determinação daqueles jovens que haviam conseguido vender caixas de cereal por cerca de US$ 40 para manter a empresa funcionando.
Eles foram aceitos na Y Combinator em 2009, e o negócio começou a ganhar força.
Naquele mesmo ano, AirBed & Breakfast passou a se chamar Airbnb. O novo nome acompanhava uma mudança maior: a plataforma deixava de estar associada apenas a colchões infláveis e passava a oferecer quartos, apartamentos e casas inteiras.
O Airbnb não inventou o aluguel por temporada. Sua grande inovação foi transformá-lo em uma plataforma global, reunindo anúncios, reservas, pagamentos e avaliações e criando mecanismos de confiança entre pessoas que, muitas vezes, nunca haviam se encontrado.
O crescimento transformou também o turismo e o mercado imobiliário. Proprietários encontraram uma nova maneira de obter renda com seus imóveis e viajantes ganharam uma alternativa aos hotéis. Ao mesmo tempo, a expansão provocou debates em várias cidades sobre moradia, impostos e regulamentação das locações de curta duração.
Em 2020, veio outra ameaça que parecia capaz de interromper a trajetória da empresa: a pandemia praticamente paralisou as viagens. Ainda assim, em dezembro daquele ano, o Airbnb chegou à Nasdaq e abriu seu capital.
A empresa que nasceu porque dois jovens precisavam pagar o aluguel havia chegado ao mercado financeiro.
E talvez uma das maiores ironias dessa história esteja justamente naquela tentativa frustrada de conseguir investidores em 2008.
Por US$ 150 mil, alguém poderia ter comprado 10% do Airbnb.



