
Você pode até não perceber que o celular na sua mão talvez tenha sido fabricado por uma empresa chinesa que, há vinte anos, você nunca teria ouvido falar, e que o carro estacionado na rua ao lado talvez seja de uma marca cujo nome a geração de seus pais e avós jamais pronunciaria. Durante boa parte dos séculos 19 e 20, grande parte das tecnologias que transformavam o mundo vinha de alguns centros industriais bem definidos. Detroit se tornou sinônimo da indústria automobilística americana e, décadas depois, o Vale do Silício se tornaria símbolo da revolução tecnológica. Durante muito tempo, quando se pensava em inovação, os mesmos países e os mesmos grandes nomes apareciam.
A Revolução Industrial fez com que, pela primeira vez, a produção deixasse de depender principalmente da velocidade da mão humana e passasse cada vez mais a depender da velocidade da máquina, do carvão, do aço, da fábrica e da capacidade de transformar milhares de pequenas tarefas repetidas em uma única operação gigantesca. Décadas depois apareceu Henry Ford, não como o inventor do automóvel, porque ele não foi, nem perto disso, mas como o homem que compreendeu o poder de produzir carros em escala suficiente para reduzir seu preço e colocá-los ao alcance de uma parcela muito maior da população. Na mesma era de grandes transformações, Nikola Tesla ajudou a revolucionar a maneira como a eletricidade podia ser produzida e distribuída. Vieram depois o rádio, a televisão, os computadores, os semicondutores e uma sucessão de tecnologias que ajudariam a colocar os Estados Unidos no centro do poder econômico, industrial e cultural do século 20.
E então a China apareceu.
Olha a ZTE, por exemplo. Mesmo sem ter espaço no mercado internacional, hoje em dia ela fabrica celulares de alta qualidade, que são bons e acessíveis. Alguns modelos conseguem carregar até 50% da bateria em apenas 30 minutos e têm integração de inteligência artificial. As marcas chinesas costumam incluir baterias muito maiores do que as que a Apple coloca dentro de um iPhone. Porém, essa marca está banida nos EUA por questões de segurança nacional. E no Brasil, a maioria das pessoas nunca ouviu falar. E não é apenas telefones, São carros. São baterias. São drones. São robôs industriais. São eletrodomésticos.
É aí que a história fica interessante para os brasileiros, porque podemos olhar para um carro BYD e perguntar por que ele existe, por que custa aquilo, por que tem determinada tecnologia e por que uma empresa chinesa foi a que conseguiu entrar em uma indústria que durante um século e meio foi dominada pela Ford, General Motors e Chrysler.
Você entra em um carro chinês e descobre que ele é bom. Não “bom pelo preço”. Bom. Você percebe que há telas enormes, sistemas de assistência ao motorista, câmeras, baterias competitivas, interiores bem acabados e softwares que parecem ter sido desenhados para uma geração que cresceu usando smartphones, enquanto alguns fabricantes tradicionais ainda parecem estar tentando convencer o comprador de que uma tela pequena no painel é uma inovação revolucionária.
E foi nesse ambiente que surgiu uma cena particularmente simbólica: Jim Farley, CEO da Ford, passou meses dirigindo um BYD e depois falou publicamente sobre a experiência, descrevendo a empresa chinesa como um concorrente extremamente sério. A própria Ford reconhece hoje que precisa competir diretamente com BYD e outros fabricantes chineses, mesmo essas marcas não estando presentes no mercado americano ainda. Farley afirmou que as marcas chinesas de veículos elétricos representam uma “ameaça existencial” para as montadoras tradicionais dos Estados Unidos e teme que elas possam entrar no mercado americano na próxima década.
E é justamente aí que a frase de Bob Dylan continua parecendo adequada:
“Venham, senadores, congressistas, por favor, atendam ao chamado,
Não obstruam o vão da porta, não bloqueiem o corredor,
Porque quem se machucará será aquele que estiver parado,
A batalha que está acontecendo lá fora
Em breve sacudirá suas janelas e derrubará suas paredes,
Porque os tempos, eles estão mudando”
Pedro Angelo Guedes é Estudante de Propaganda e Publicidade



