
Estivesse vivo Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, para os íntimos, teria um prato cheio para comentar nas suas sempre atuais e bem humoradas crônicas, publicadas no “Última Hora”.
Para quem não se lembra, vale recordar quem foi Stanislaw Ponte Preta, o inventor do “Crioulo Doido” e das certinhas do Lalau. Jornalista, autor de músicas, sem ser músico, mas um grande boêmio, marcou época pelos seus textos de fina ironia.
Em 1967, em plena ditadura, quando tudo era censura e escuridão e qualquer gracejo contra o governo era motivo de xilindró, escreveu o samba que se tornou antológico e começava assim “Foi em Diamantina, onde nasceu JK, que a Princesa Leopoldina, lá resolveu se casar…” É a história de um crioulo, autor de sambas enredos, que acostumado a contar a história oficial do Brasil, sem nunca sair do permitido, exigiram que o tema fosse “A atual conjuntura”. Ele pirou de vez. Exceto a primeira frase do samba, que é inteligível, o restante é uma loucura e troca de personagens genial.
As certinhas do Lalau marcaram época e eram escolhidas para fazer sátira às mais elegantes do Ibrahim Sued. As certinhas eram as mais bem despidas.
Sérgio Porto, ou Stanislaw Ponte Preta, escreveram (é melhor deixar no plural) inúmeros livros, destacando-se o “FEBEAPA – Festival de Besteiras que Assola o País”. Estudante de arquitetura, abandonou a escola em favor da boemia, foi funcionário do Banco do Brasil, assumiu o pseudônimo para ironizar os colunistas sociais, tanto os que respeitava, como o Jacinto de Thornes, como para gozar o Ibrahim Sued.
Mas, do que quero falar é da prisão, no Rio de Janeiro, de uma quadrilha de falsificadores de cocaína. Não é que os sacripantas, os descarados e sem vergonhas, estavam a adicionar bicarbonato de sódio, xilocaína e outros aditivos na “pura” colombiana? Vejam a que ponto chegamos. Bem fez o doutor Delegado que, além de prendê-los, fez uma declaração à imprensa que é uma preciosidade. Disse, a autoridade, que “estourou” o laboratório clandestino e que todo o equipamento e produtos usados foram destruídos, que a população da cidade poderia dormir tranquila, em segurança, porque aquele tipo de crime estava sob controle.
Tia Zulmira que desde a morte de seu autor nunca mais falou, com certeza teria dado ao doutor Delegado os parabéns e o primo Altamirando, o patriota, sugerido o seu nome, do Doutor, para ser condecorado pela redentora, ou para dar nome a uma praça. Seriam homenagens justas porque este Delegado é realmente gente boa, alguém que se preocupa com a saúde e a qualidade do que é consumido na cidade. É evidente que falsificar cocaína é crime e nos dá uma grande tranquilidade saber que as autoridades estão atentas a este absurdo.
Imaginem vocês, leitores, o que seria dos consumidores deste produto, se o mercado fosse invadido por falsificações. Seria dobrar o atendimento dos hospitais, neguinho com nariz anestesiado, pulmão com bicabornato provocando infecção, estas coisas. Está salva a pátria.
Nossa cocaína, de agora em diante, pelo menos no Rio de Janeiro, será sempre pura. O que? Pode? O Delegado não vai proibir o tráfico de cocaína? Todo mundo agora pode comprar cocaína pura? Vai ter selo de qualidade? Podemos cafungar à vontade?
Mais que nunca vale a afirmação de que este não é um país sério.
Nestor de Oliveira é Jornalista e Escritor



