O Professor de Ciências e de outras matérias mais (por José Emílio)

O nosso personagem é dessas pessoas que nos possibilita a ficar horas e mais horas contando casos que [...]

O nosso personagem é dessas pessoas que nos possibilita a ficar horas e mais horas contando casos que aconteceram com ele ou que ele viu, em que teve participação, enfim…

É um sujeito tal que, tranquilamente, dá para fazer vários e densos capítulos sobre a suas peripécias e trajetória. Por enquanto, ficaremos só com uma pequena amostra da fita, quando ele teve uma experiência como professor, numa determinada época da sua vida.

É muito comum, quando um estudante do interior do estado faz vestibular e passa, ficar aguardando para começar o curso só no segundo semestre. Aí ele tem mais é que arrumar suas tralhas e voltar para a casa da mamãe, o que significa seis meses sem despesas com repúblicas e manutenções pessoais.

Quando voltam para as suas cidades, normalmente, eles são requisitados para atuar como professores pois, em alguns lugares, o corpo docente é um pouco escasso e essa mão de obra, ainda que temporária, é muito importante para a comunidade. Com o nosso amigo não foi diferente.

Assim que ele chegou, a notícia do seu sucesso no vestibular já havia se espalhado, e era sabido que o seu curso só se iniciaria em agosto. Fato que levou o pessoal do colégio da cidade a lhe procurar para missão tão importante. Ele se entusiasmou muito com o convite pois teria a oportunidade de colocar em prática os seus conhecimentos, além dos dotes políticos; afinal, para ser um professor eficiente, é preciso ter um bom jogo de cintura e outras coisas mais.

Também a ocasião seria boa para ele estreitar as amizades com outros conterrâneos. E, cá pra nós, nosso amigo já estava bem grandinho, e uma graninha a mais pegava bem, pois ele, desde essa época, já era chegado numa boa prosa regada ao líquido e certo.

A matéria que ele começou a lecionar, foi ciências físicas e biológicas para o curso noturno, ainda que estivesse preparado para outras. Feliz com a mais nova atividade, utilizando as lições recentes do cursinho pré-vestibular e contando com certa maturidade dos seus alunos, mandou ver nos conhecimentos sobre células, tecidos…

No capítulo da reprodução, ele deu um verdadeiro show, e as suas aulas, a esse respeito, tornaram-se uma atração à parte pois ele as ilustrava com alguns exemplos interessantes e curiosidades. Elas eram muito prestigiadas, inclusive por outras pessoas que sequer estudavam no colégio.

Com o tempo, pela falta de professores especializados, ele foi sondado para lecionar Educação Física. Como um desportista atuante e conhecedor das coisas dos esportes, ele estava bem credenciado para tal desafio. Na capital Mineira, nas horas de folga, ele frequentava os treinos e jogos das equipes profissionais de futebol, e sempre prestigiava os esportes amadores. Ele também foi aluno de ótimos e conceituados professores da área. O seu entusiasmo se redobrou pois ficaria por conta da nova atividade e em horário integral. Até deu um tempo nas aulas de Ciências, para reclamação geral dos seus alunos.

Em poucos dias ele revolucionou a cidade planejando e implantando as mais variadas modalidades esportivas. A meninada, até então, só acostumada ao futebol, aos poucos, foi tomando gosto e apego pelos outros esportes. O basquete era a menina dos seus olhos e, com o tempo, conseguiu formar vários times.

No dia da estreia e demonstração das equipes para a comunidade local, o ginásio de esportes ficou lotado e com uma torcida bastante empolgada; afinal aquilo era uma novidade para todo mundo e eles ainda não entendiam muito bem as regras daquele jogo.

Para a grande decepção do técnico – professor, todas as partidas terminaram com um placar inusitado para esse tipo de esporte, nenhuma equipe conseguiu encestar a bola e o zero a zero foi geral.

Diante do fracasso das experiências de tentar difundir a prática de outros esportes na cidade, a saída foi se empenhar, exclusivamente, com o velho e bom futebol. Pois vejamos: além da frustração do placar no basquete, numa aula de boxe um menino acertou o outro, que foi desacordado para o hospital.

Quando tentava implantar a prática da natação para seus alunos, outro garoto, apesar de acostumado em nadar no rio Jequitinhonha, estranhou ou admirou em demasia o azulão da piscina e acabou se afogando numa das aulas. Felizmente nenhum dos casos teve maior gravidade.

Com o futebol a coisa parecia mais tranquila e o nosso professor–técnico conseguiu formar várias equipes.

Com o apoio da prefeitura, ele promoveu alguns torneios locais e regionais. Numa dessas partidas, contra um time de uma cidade vizinha, na decisão de um torneio, ele instruiu os seus laterais, insistentemente, para não passarem do meio de campo, em hipótese alguma, pois os pontas adversários eram muito ariscos e perigosos. O jogo estava bastante difícil, quando uma bola sobrou na linha que divide o gramado. No caso, era só o lateral partir pelo boqueirão aberto, que a fatura estaria liquidada, pois no campo adversário só restava o goleiro. Ao invés de prosseguir a jogada, ele, humilde e obedientemente, pisou na bola e parou para perguntar ao professor, que estava na beira do campo, se poderia prosseguir; travando-se o seguinte diálogo:

− “Ô seu Janzo eu posso ir”?

− “Vai seu…fi…duma …vai disgra”!

− “Mas o senhor num falô qui…qui…qui”?

Tudo em vão. Quando o garoto, o professor e a torcida se assustaram, a bola já estava guardada nas suas próprias redes. Resultado, uma derrota por causa de uma instrução equivocada ou mal interpretada.

O nosso esforçado professor, mais uma vez se decepcionou, mas fez o que pode. Como o semestre já terminava e ele teria de voltar para continuar os seus estudos na capital, ele não se importou muito com os resultados obtidos e, a seu sentir, a experiência até que foi válida. Ele só não contava com um fato estranho, que causava alguns rumores pela cidade afora e que apressou a sua volta para a cidade grande.

Acontece que na sua estreia como professor, ensinando ciências físicas e biológicas para o curso noturno, no capítulo relativo à reprodução humana, ele se equivocou no que tange ao período fértil do sexo feminino, talvez na questão dos dias, do antes ou do depois… Como a maioria dos alunos eram adultos ou adolescentes e, na época, a utilização dos preservativos não era muito disseminada na sociedade, confiando nas lições do jovem professor eles se sentiram muito à vontade e ficaram seguros para as suas práticas amorosas. O resultado disso tudo, foi que nunca antes naquela pequena cidade, o volume de gravidez tinha sido tão alto quanto no período em que o nosso amigo mestre lecionou tal matéria. Bateu todos os recordes, desde a emancipação política do município, segundo as estatísticas nos botecos da cidade.

A perspectiva para os próximos meses era a realização de vários casamentos na marra ou na polícia, como se diz na região, obrigados pelas famílias das moças. Vejam bem o que um pequeno lapso é capaz de provocar. Imaginem um grande lapso!

Diante da gravidade de tal fato, o nosso jovem professor voltou para a capital, a fim de iniciar seu curso universitário, com uma certeza na sua cabeça: assim como viver, ser professor, técnico de algum esporte…, é muito perigoso.

José Emílio é Engenheiro Sanitarista e Jornalista

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