
Um dia desses escrevi sobre a prioridade, uma palavrinha que tem a simplicidade das coisas geniais: qualidade do que está em primeiro lugar. Ponha alguém, uma ideia ou seu sonho em primeiro lugar e você dará atenção especial a ele. Vai cultivá-lo e realizá-lo ou, com ele, realizar-se.
No entanto, alguém me chamou a atenção: “Alto lá! Tratando assim a questão, você foi direto ao fim da linha” E, fazendo-me envergonhar da minha afoiteza, lembrou o pensamento de Bergson: “aquilo que não é percebido não será nunca compreendido”.
Verdade das verdades, a percepção vem antes da prioridade no processo da realização humana. Distinguir, notar, destacar do que é comum. Não é à-toa que, na tradução literal do latim, perceber quer dizer apoderar-se de. Quem percebe reconhece, retribui, conquista. Aliás, na lenda do rei que queria realizar seu sonho foram–lhe reveladas estas ideias como a tríade da felicidade: Percepção, reconhecimento, retribuição. Se não estavam lá, passam a estar agora, graças ao privilégio de quem cria.
Você percebe alguém ou alguma coisa e a distingue. Caso contrário… Somos levados àquela cena de Casablanca, o clássico do cinema: Nick / Humphrey Bogart conversa com o personagem vivido por Peter Lore. Num dado momento, ele pergunta a Nick:
- Você me despreza, não?
- E o outro fulmina:
- Se eu pensasse em você…
Reconhecer pressupõe perceber o outro; eterno exercício de atenção e de amor. Isto vale também para as ideias, os problemas, os desafios. Percebê-los é condição fundamental para que possamos lhes conferir a qualidade do que está em primeiro lugar.
Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O País das Gambiarras, A rebelião das mal-amadas e acaba de lançar, pela Editora Del Rey, A guerra de cada um. Já na Amazon: https://www.amazon.com.br



