Meus Avós (por Palowa Mendes)

Um pé de romã, um violão, uma banheira esmaltada, um pomar, um chapéu, um jogo de víspora, uma [...]

Um pé de romã, um violão, uma banheira esmaltada, um pomar, um chapéu, um jogo de víspora, uma Bíblia, histórias de assombração e o crochê. Achou esquisito? Pois são essas as imagens que surgem quando quero sentir a presença dos meus avós.

Na minha infância, o jardim da vovó Mercês e do vovô Doier era um paraíso. A casinha de quatro cômodos, à beira do Arrudas, em uma favela, tinha gosto de amor e de liberdade. Minha aventura preferida era escalar o pé de romã, carregado de frutos abertos, cujas sementes pareciam joias, verdadeiros rubis, meus tesouros.

Quando eu descia da árvore com as mãozinhas manchadas pelo vermelho das frutas, eles me aplaudiam como se eu fosse o maior dos presentes. Seus abraços e carinhos preenchiam qualquer vazio. Aquela casinha era simples, mas tudo nela era mágico. Eles transformavam qualquer momento em algo especial.

Brincávamos de nadar nas bacias, ouvíamos o violão do vovô ecoando pela casa e aprendíamos os primeiros pontos de crochê com a vovó, que era uma artesã extraordinária. Na Usina, onde moravam o vovô Pedro, a vovó Raimunda, o vovô Miguel e a vovó Ivone, era como viver férias eternas.

Éramos muitas crianças em um lugar maravilhoso, com jardins enormes, pomar, piscina e estradas só para nós. Brincávamos de polícia e ladrão, roubávamos bandeiras, colhíamos frutas no pomar, jogávamos amarelinha e corríamos livres, sempre sob o olhar atento deles.

Demonstravam o amor deixando-nos explorar o mundo com a certeza de que estávamos seguros. Eu transitava de uma casa para outra como bem queria.

Na casa da vovó Raimunda, o banho era uma festa. Depois de passarmos o dia correndo entre as máquinas da Usina com o vovô Pedro — o auge da aventura para qualquer criança — ficávamos horas dentro da banheira, revivendo cada descoberta do dia. Eu adorava observá-lo conferindo os instrumentos.

Depois me sentava em seu colo, tirava seu chapéu, e ele sempre me pedia um beijo na ponta do nariz. Ah… aquele chapéu tinha cheiro de vovô. Até hoje, sempre que pego um chapéu — e eu adoro chapéus — procuro, sem perceber, o cheiro do Pai Pedro.

No fim da tarde, depois do banho e das brincadeiras de auditório, em que todos éramos cantores famosos, chegava a hora da víspora com o vovô Miguel. “Duque”, “titiu”, “balaiada”… era assim que ele anunciava as marcações. Eu ria quando ele cantava: “Qua, qua, qua… dois patinhos na lagoa…” E, claro, ele me deixava ganhar, porque eu era a caçula da turma.

No final da noite vinha a nossa sessão de pipoca com histórias de assombração da vovó Ivone. Enquanto estourava a pipoca na fogueira improvisada no meio da sala, ela se transformava em criança junto conosco. O medo se espalhava, e ninguém tinha coragem de sair dali sozinho, nem para fazer xixi.

Aos domingos, quando o almoço era na casa da vovó Raimunda, todos os primos se reuniam, e a casa ficava cheia. Depois da refeição, as tias conversavam no quartão, os tios iam jogar futebol, e a vovó surgia com um pacote de balas, uma Bíblia e um convite: era hora do estudo bíblico. Todos os netos da primeira geração estudaram a Bíblia com ela. Era o momento da vovó, mas também o nosso. Era assim que nos ensinava a pensar em Deus, na vida e em seus mistérios.

Hoje é o Dia dos Avós (26 de julho).

Quando penso nos meus, a saudade me ensina que a felicidade tem cheiro. Tem cheiro de avós. E, de algum jeito, ainda os sinto no vento.

Obrigada por tudo. Obrigada por tanto.

Feliz Dia das Vovós e dos Vovôs!

Palowa Mendes é Advogada, Ambientalista, Militante Social, e Assessora Parlamentar

Homenagem ao Dia dos Avós

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