
Provavelmente você nunca ouviu falar de Samuel Langhome Clemens, um pensador livre e crítico contundente das instituições sociais e políticas de sua época, nascido em Florida, Missouri, em 30/11/1835. Ele defendia a liberdade de expressão e igualdade racial, expressava oposição ferrenha à escravidão. Em seus trabalhos, demonstra ter sido influenciado pelo mais popular romancista inglês da era vitoriana, Charles John Huffam Dickens, que por sua vez foi influenciado pelo inglês William Shakespeare.
Samuel Langhome Clemens era também um frasista pleno de ironias: “Deus criou a guerra para que os americanos aprendessem geografia”, “Não tenho medo da morte. Eu estava morto por bilhões e bilhões de anos antes de eu nascer e não sofri o menor inconveniente nisso”, ou ainda “A pior solidão é não se sentir confortável com você mesmo”.
Da mesma forma, talvez você não tenha ouvido falar de um tal de Charles Lutwidge Dodgson, um romancista, contista, fabulista, poeta, desenhista, fotógrafo, matemático e reverendo anglicano britânico, nascido em 1832 e influenciado por Hans Christian Andersen, um escritor dinamarquês, especialista em literatura infanto/juvenil, prolífico de peças, relatos de viagem, romances e poemas.
Andersen é mais lembrado por seus contos de fadas literários e literatura infantil como “A pequena sereia” e “O patinho feio”. E Julinho da Adelaide, nascido na comunidade da Rocinha, compositor de 3 músicas só, entre 1974 e 1975, que se achava muito feio a ponto de oferecer um show em benefício dele próprio para pagar uma intervenção do Dr. Ivo Pitanguy, renomado cirurgião plástico, você se lembra? Não se tem a data certa de seu nascimento, mas sabe-se que ele morreu aos 27 anos, talvez atropelado ou metralhado.
Até aqui, muito mistério; vamos destrinchar melhor essa história que a cada parágrafo complica mais.
Bem, Mark Twain era o pseudônimo de Samuel Langhome Clemens; Lewis Carroll o pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson. O primeiro, autor de “As Aventuras de Tom Sawyer” dentre outras tantas obras conhecidas, influenciou nada menos do que Philip Roth, nascido em Newark, NJ, em 1933. Roth é provavelmente o maior romancista judeu de língua inglesa e o maior contador de histórias dos Estados Unidos da América, depois de William Faulkner. Roth também foi o único autor americano que, em vida (faleceu em 2018), teve suas obras completas publicadas pela Library Of America, órgão que tem como missão editorial preservar as obras consideradas como parte da herança cultural daquele país.
Já Lewis Carroll é tão somente o pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson, autor de nada menos do que “Alice no País das Maravilhas”, obra banida da província de Hunan, China, pelo general Ho Chien, governador daquela região. A razão alegada é que na obra há animais que falam e se comportam como seres humanos e essa igualdade poderia ser desastrosa para as crianças, além de ser um insulto para os humanos.
Pois bem; e esse lendário Julinho da Adelaide, quem é? Nada mais do que um pseudônimo temporário de renomado compositor brasileiro. Afinal, ele surgiu de uma travessura ao estilo bem carioca para resolver um problema de um compositor que já tinha uma letra proibida, ficando marcado e passando a integrar uma espécie de lista maldita da censura.
Chico Buarque de Holanda, torcedor fanático do Fluminense e fundador do time de futebol Politheama, também teve que dar os seus dribles fora de campo. Perseguido pela censura no período dos governos militares, percebeu que bastava apresentar suas composições com o seu nome para os censores, que a obra era sumariamente proibida. Já dá para perceber de qual “útero” saiu o tal Julinho, filho da dona Adelaide, não é mesmo?
Tudo corria em total segredo, a não ser entre um seleto grupo de amigos do Politheama, até que, um dos integrantes do time, Mario Prata, teve a ideia de entrevistar o tal Julinho, da dona Adelaide. Certa feita, o escritor, jornalista e dramaturgo perguntou ao dono do jornal em que trabalhava, Samuel Wainer (que foi casado com a Danuza Leão), o que ele achava de uma entrevista com o Julinho da Adelaide. Ia ser um furo de reportagem, pois o “compositor”, até então, não havia dado nenhuma entrevista. “Poucas pessoas tinham acesso a ele; nenhuma foto” em seu texto publicado em edição do jornal Última Hora datada de 7 de setembro de 1974.
Espantado, Wainer perguntou se ele toparia. – “Quem, o Julinho?”, rebateu o escritor. – “Não, o Chico”. Esse diálogo demonstra que parte da intelectualidade da época sabia a identidade real de quem era o compositor da Rocinha. Quem não havia sacado a jogada era a censura e o grande público.
Deixando de lado tanta história, vamos direto às músicas …
A primeira delas foi “Acorda, amor”. Apostando na existência da tal lista maldita e na falibilidade dos censores, Chico ainda colocou uma pitada na invenção, apresentando a obra como sendo uma parceria entre Julinho da Adelaide e Leonel Paiva, autores contra os quais não pesava nenhuma suspeita. Ele tinha razão, a canção foi aprovada sem restrições.
As duas outras canções, de autoria apenas do então já mais maduro Julinho da Adelaide, foram “Jorge Maravilha” e “Milagre brasileiro”.
No link a seguir, “Jorge Maravilha” com os Novos Baianos e o vocal de Paulinho Boca de Cantor.
Finalmente, “Milagre Brasileiro” na voz da irmã de Chico (ou seria do Julinho da Adelaide?), Heloisa Maria Buarque de Holanda, mais conhecida pelo nome artístico de Miúcha, que “viajou antes do combinado” em 2018.
Com tanta dispersão nos relacionamentos do filho de dona Adelaide e uma terrível síndrome de infecundidade do algoz Chico Buarque, os censores passaram a exigir a Carteira de Identidade dos compositores. E Julinho perdeu a sua de uma vez por todas, talvez nas vielas da Rocinha, mas não antes de ter sido proibida a sua “Apesar de você” de boa lembrança e sempre atual.
Nessa história repleta de pseudônimos, o recorde fica mesmo com o “nosso” Fernando Antônio Nogueira Pessoa, que assinou obras com mais de 70 nomes distintos, mas que, dizem os especialistas, no fundo todos podem ser “consolidados” em quatro heterônimos: os mais conhecidos são Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. A estes, podemos também adicionar Bernardo Soares, considerado um semi-heterônimo.
Apenas para dar o toque final nessa confusão de nomes, é bom lembrar que os heterônimos se diferenciam de pseudônimos porque, no primeiro caso, além de nomes diferentes, cada um tem um estilo literário próprio, muito bem definido.
Jose Flávio Franco é Engenheiro, Conselheiro, e Consultor Sênior



