O peido fatal (por Luis Giffoni)

Imagine-se à beira da piscina de um hotel em Copacabana, numa tarde de muito sol. Deitado na [...]

Imagine-se à beira da piscina de um hotel em Copacabana, numa tarde de muito sol. Deitado na espreguiçadeira, você acompanha as hóspedes que circulam dentro e fora d´água. A seu lado, duas delas se bronzeiam com fios dentais. Seus filhos e netos se retiraram para ver os atores famosos de um filme que estão fazendo nos jardins de frente para o mar. Os netos estão felizes. Afinal, é Dia das Crianças. Momentos assim removem o estresse do dia a dia, relaxam o corpo. Bem, relaxaram demais o meu.

Todos produzimos gases durante a digestão. Uns mais, outros menos. A rainha da Inglaterra – ou seu marido, não ficou explicado até hoje – parecia pertencer ao primeiro time. Para tirar a dúvida, confira a cara do príncipe Harry que estava atrás do casal, na sacada do palácio de Buckingham, após um jato odoroso real. A reação de Harry diz tudo. O vídeo só não esclarece se houve muito barulho.

De volta ao Rio, senti o efeito da digestão de uma portentosa feijoada. Um bólido de ar cruzou meus intestinos, com a propulsão de um Boeing. A custo, segurei-o, um centímetro antes de ganhar o céu aberto. O danado logo arrebanhou companheiros, cada qual mais maligno que o outro, revoltados com a prisão do corpo. Cutucaram-me com força e com sutileza, às vezes fingindo ser pacíficos. De repente, uniram-se, e entrei em pânico. 

Não pude resistir, rendi-me ao assédio. Liberei com cuidado o mais insistente. Saiu em silêncio, febril, inflacionário. Em segundos, contaminou a área a meu redor e seguiu em frente, cada vez mais desinibido. Especialistas em guerra química recomendariam o uso imediato de máscara contra gases venenosos.

As mulheres nas laterais olharam para mim, desconfiadas. Encarei-as, devolvendo a desconfiança, recolheram-se. Um zunzunzum de desconforto e curiosidade circulou pela piscina. Encolhi-me, inocente.

Nisso, uma de minhas netas voltou. Veio correndo, com o entusiasmo dos seis anos, gritando:

– Vovô, vovô, eu vi fazer um filme!

Assim que chegou a meu lado, ela deu duas profundas fungadas, fez cara de nojo e fuzilou:

– Hum, vovô, você peidou! Conheço este teu cheiro. Agora você não respeita mais nem o Dia das Crianças!       

As gargalhadas me pareceram ensurdecedoras. Ocuparam toda a orla. Fui a diversão de muita gente naquela tarde. Mesmo no dia seguinte, alguém sempre me olhava, com um sorrisinho acusador: “Foi ele!”. Netos são um perigo. A rainha da Inglaterra foi uma vítima. Eu também.

Luis Giffoni é Escritor, Membro da Academia Mineira de Letras. Prêmio Jabuti

Luís Giffoni lançou recentemente o romance “Linha de Neve”, que aborda uma aventura nas montanhas dos Andes. Para a compra online: https://www.amazon.com.br

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