Marcio Borges – discurso proferido em sua posse na Academia Mineira de Letras em 11 de julho de 2026 (por Marcio Borges)

Há 60 anos, no auge dos meus 20, eu pensava que pudesse mudar tudo que via de errado no [...]

Há 60 anos, no auge dos meus 20, eu pensava que pudesse mudar tudo que via de errado no mundo, instaurando uma mítica “revolução“. Entendia por essa palavra sedutora, a instituição da utopia, do mundo perfeito de paz e prosperidade, habitado por pessoas fraternais, bem alimentadas, sadias e felizes, em perene era de plena fartura para todos e todas, igualmente merecedores do trabalho produtivo e do ócio criativo, das virtudes da Amizade, da Paz, da Arte a vigorarem em tudo: nas ruas, teatros, bibliotecas, fábricas, escolas, cinemas, palcos. Sonhava com praças e pratos cheios. Eu era jovem e estava disposto a colocar minha vida a serviço dessa causa. 

“Há 60 anos, no auge dos meus 20, eu pensava que pudesse mudar tudo que via de errado no mundo, instaurando uma mítica “revolução”. Entendia por essa palavra sedutora, a instituição da utopia, do mundo perfeito de paz e prosperidade, habitado por pessoas fraternais, bem alimentadas, sadias e felizes, em perene era de plena fartura para todos e todas, igualmente merecedores do trabalho produtivo e do ócio criativo, das virtudes da Amizade, da Paz, da Arte a vigorarem em tudo: nas ruas, teatros, bibliotecas, fábricas, escolas, cinemas, palcos. Sonhava com praças e pratos cheios. Eu era jovem e estava disposto a colocar minha vida a serviço dessa causa. 

Nesse tempo, escrevi uns versos que depois se tornaram muito populares pelo Brasil afora: “Porque se chamavam homens / também se chamavam sonhos / e sonhos não envelhecem”.  Acrescento décadas depois: que sonhos, de fato, se propagam e se perpetuam, mas os sonhadores, esses fenecem, se esquecem e eventualmente desistem e falecem. Tenho muita sorte em ver minhas palavras e sonhos sobrevivendo ao tempo, guardados na memória, no coração e na voz dos meus semelhantes. Passei minha vida inteira fazendo isso: colocando palavras e sonhos no cantar e na voz dos outros. 

Hoje, aqueles doces pássaros da juventude voaram para muito longe, de onde, no entanto, continuam gorjeando sua leve melodia, através das gerações. Palavras e sonhos que já não me pertencem mais. Tornaram-se propriedade afetiva, e coletiva, de outras vozes, outras épocas, outros povos. Incorporaram-se ao acervo sentimental dos afetos populares.

Quanto a mim, tudo bem, fico alegre e satisfeito com isso, porque não criei aqueles cantos e aqueles versos por capricho. Criei por precisão, por necessidade inadiável. Primeiro para experimentar algum tipo de poder. Antes de tudo, o poder de vencer o medo. De vencer a pobreza. De vencer a força bruta, os dragões da maldade e da tristeza, com o poder das flores que entopem canhões. Criei para me opor a qualquer forma de totalitarismo, qualquer imposição da vontade do mais forte sobre o mais fraco, pois isso sempre me deixou injuriado e sempre me afastou de muita gente. Eu sempre pertenci a esse lado mais fraco. Minha introspecção era meu escudo contra tudo e todos, e minha intuição me orientava, como uma bússola imprecisa. E me premiava com achados e descobertas. Eu tinha dezesseis anos e guardava debaixo da cama uma mala velha, cheia de folhas de caderno escritas a mão, versos, contos, fragmentos de ideias, sinopses, roteiros.

Certo dia, flagrei meu pai fuxicando essa mala e me senti muito mal com a cena, como se ele estivesse ali lendo minha mente e meus segredos mais íntimos. Papai era um jornalista conceituado; era quem corrigia nossos deveres escolares de português, análise sintática e redação. Quando me viu, perguntou:

– “Você que escreveu essas coisas”?

Eu, bastante envergonhado, e esperando alguma severa correção:

– “Sim, senhor, fui eu”. 

– “Pois vou te dizer só uma coisa: você está começando por onde eu ainda não cheguei e nem sei se vou chegar um dia”. 

Abracei meu pai e chorei dentro do seu abraço. E prometi a mim mesmo naquela hora: nunca mais paro de fazer isso que faço. E até hoje não parei. 

Peço paciência aos ouvintes, porque pretendo levar até o fim minha versão, ou narrativa, como se diz hoje, da lenda das canções eternas, dos sons imaginários, dos hinos de paz e amor que pretensamente eu e meus camaradas criamos ao longo do tempo, harmonias e versos que ressoam em muitos ouvidos até hoje. Para mim, desde sempre a palavra foi encantada, mistério que me arrebatou pela vida afora, com seus segredos e revelações. Eu era ainda menino e já ficava matutando: que mágica era aquela, a fala, a tal da palavra. Por que a gente faz vários sons com a boca e um outro ouve, decifra, entende e responde com outro tanto de sons? De onde vinha isso? Por quê um animal grasna, rosna, late, ruge e um outro fala, canta, conversa e faz discurso? Deitado na cama, eu menino ficava repetindo uma palavra banal até ela perder o sentido, e me maravilhava ao reencontrar a trilha do seu nexo, quando a música de suas sílabas, de repente, recuperava o significado. De onde viria aquilo?

Sei que estudiosos e linguistas pelo mundo afora afirmam que nenhum idioma pode nos dar ideia, nem de perto, nem de longe, do que possa ter sido a mágica que me intrigava, a origem da linguagem, a lingua mater da humanidade. Pergunta sem resposta. Porque, segundo eles, e acho que concordo, o fenômeno da fala é anterior ao que chamamos de cultura e se perde na noite dos tempos. Os atributos emocionais e subjetivos da linguagem humana chegam imediatamente na expressão da fala, da pré-história até hoje. O grito, o chamamento, o aviso de perigo, a evocação de espíritos, isso tudo constitui linguagem, criada ali no momento que exigiu sua criação. Quando a situação se repete, aquele som que todos entenderam é repetido até ser incorporado a um repertório vigente. Então, tornou-se palavra, mas, nesse ponto já se distanciou completamente daquela origem espontânea. Quer dizer, com o passar do tempo, a palavra perdeu a memória da sua origem, mas, pode agora se dar ao luxo de prescindir da voz, da sonoridade que primeiro a criou. Ela pode ser escrita, e assim chegar ao silêncio e à perenidade das imagens impressas no barro, nos papiros, nos livros ou na tela de um celular. Se esse percurso da palavra humana não parece pura magia divina, não sei mais o que parece. 

Meus amigos e amigas, isso são considerações de um amador, de um diletante curioso e reflexivo – não sou um estudioso da matéria. E como então a palavra vira um poema, vira uma narrativa épica? Isso é matéria para muitos e muitos livros, estudo para uma vida inteira. Vou voltar para minha pequena seara. Lembro que foi logo depois do episódio da mala devassada, que eu compus minha primeira letra de música. Hoje, tenho mais de 300 canções gravadas, por pessoas e vozes maravilhosas e ainda estou aqui até hoje, tentando descobrir alguma coisa nova, nesse emaranhado de palavras, versos e sons. Meu saudoso amigo Gonzaguinha nos lembrava: “a beleza de ser um eterno aprendiz!”

Muitas de minhas letras foram radicalmente panfletárias e experimentais, excessivamente fora do esquadro, às vezes até grosseiras e toscas, porque eu mesmo sempre me senti assim. Desde criança, meu coração sempre bateu mais forte pelos malditos deserdados desse chão, pelos pobres e maltrapilhos, pelas pretas empregadas domésticas e seus filhos que eram meus companheiros de grupo escolar. Meus versos, portanto, vindos dessas fontes cruas, jamais poderiam ser bonitinhos, elegantes e bem construídos. Eu não sou um filho típico da classe média, e meu acesso ao chamado “bom-gosto” foi uma viagem penosa e radical, passou por sofrimento, intimidação e preconceito. Aquele pedaço de Belo Horizonte, que ajudei a tornar famoso, a tal esquina das ruas Paraisópolis e Divinópolis, aquilo ficava no fim da cidade quando eu era menino, mas foi ali que comecei a colecionar amigos de infância, de confiança e fé; foi ali que comecei a praticar a solidariedade cúmplice e a igualdade auto-imposta, repartir a merenda, os gibis, as figurinhas, os medos, as revoltas e os folguedos. Foi com aqueles meninos e meninas que povoaram minha infância de tanta lembrança boa que aprendi o significado da palavra AMIZADE. 

Hoje, vivo quieto na roça, num sítio em Bocaina de Minas, a compor, meditar, escrever, fotografar lua, estrela e passarinho, e conviver com minha esposa e minha descendência, filhos, netos e afilhados. Continuo otimista e sonhador. Acho que algum dia, depois dessas pesadas purgações que o planeta atravessa, talvez o dia dos filhos dos meus netos, quem sabe não brote e vigore uma Nova Humanidade, bem diferente dessa que está passando tão mal na nossa frente, uma que seja mais parecida com a utopia do mundo perfeito de paz, prosperidade e abundância dos meus longínquos sonhos juvenis.”

Márcio Borges é poeta, letrista e escritor, sendo um dos fundadores do Clube da Esquina. Escreveu várias das mais lindas músicas do cenário brasileiro. Tomou posse na Academia Mineira de Letras neste 11 de julho de 2026

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