
Durante séculos, de grão em grão a areia cobriu tudo. Só deixou à mostra alguns pontos que os arqueólogos entenderam como sinais de algo valioso por baixo. Removeram a areia e então apareceram as faraônicas edificações egípcias. Tornaram-se atrativos incomparáveis nas ricas margens do Nilo, do qual o Egito é uma dádiva, segundo o grego Heródoto.
Pois semelhante se pode aplicar a esta cidade, à margem de outro rio, o Moldava, no leste europeu. Como o próprio país, a República Tcheca, por décadas Praga ficou sob o tacão soviético, com restritos contatos com os vizinhos do lado ocidental. A opressão do Estado causou, entre outros efeitos, a estagnação urbana. Velho metrô, bondes antiquados correndo sobre calçamentos de pedra em ruas acumulando água nas chuvas, um mundo de prédios históricos e uma história riquíssima. O socialismo fez bem, então, por manter intocada a capital tcheca. Só nesse aspecto. Sem liberdade, a ânsia por reavê-la gerou a chamada “Primavera de Praga” (1968), um dos mais fortes movimentos contra a dominação soviética. Foi ferozmente esmagado, mas abriu o caminho da libertação.
Caiu a cortina de ferro soviética e Praga apareceu esplendorosa, pronta para ser festejada por sua arquitetura a lhe conferir o apelido de “Paris do leste” e de uma surpreendente vida cultural. Nos espaços mais frequentados, muitas pessoas, com cartazes diversos, algumas com aquelas placas penduradas no pescoço e cobrindo a frente ou as costas, ou às vezes os dois lados do corpo, anunciam concertos, espetáculos de teatro e atividades da mesma natureza. Não apregoam, mas silenciosos circulam e informam quando solicitados e até vendem ingressos. Podem indicar, entre tantos outros eventos, um recital vespertino com a sinfonia “Do Novo Mundo”, do filho da terra (1841/1904) Antonin Dvorak, em salão de um dos muitos palácios da cidade. Preço acessível, ambiente informal. O casario barroco e renascentista, o sol poente refletido no rio, a música indo do suave ao vibrante: para não esquecer pelo resto da vida.
Também não é possível esquecer tratar-se da cidade natal de Franz Kafka, de vida curta, apenas 40 anos (1883/1924), mas de obras que mudaram os padrões literários ocidentais. Introduziu o realismo fantástico ao metamorfosear personagem em inseto e penetrou na alma humana buscando desvendar-lhe a complexidade, num clima de absurdo e desesperança.
Outro literato, anterior a Kafka, era poeta. Chamava-se Neruda (1834/1891). Não, não se trata do outro poeta, o chileno Neruda. Este era Pablo, enquanto o tcheco era Jan e dele o chileno Neftali Ricardo Reyes tirou o pseudônimo.
No Chile, tínhamos visitado as três casas extravagantes de Neruda, em Santiago, Ilha Negra e nas encostas de Valparaíso, de frente para o Oceano Pacífico, tão grande “que não cabia em nenhuma parte, por isso colocaram-no diante de minha janela”. Pois em Praga, ao descer a rua (Nerudova) desde o alto do castelo e da catedral de São Vito até o centro, por caso deparamos com uma construção antiga, colorida como as vizinhas, algumas das quais palacetes barrocos com desenhos curiosos nas fachadas. Uma placa marcava: casa de Neruda, o original, realista e pessimista (“Como leões presos na jaula, queríamos ir para o céu, e estamos presos à Terra”). Minha mulher, Marly, e eu festejamos a descoberta.
Abaixo, o Moldava é cruzado pela ponte Carlos, 500 metros de cartão-postal, sempre repleta de gente, alguns tocando as esculturas laterais, em especial a de São João Nepomuceno, para, segundo a tradição, dar sorte e retornar ali. Mais adiante, o meio-dia é aguardado diante do relógio astronômico com suas figuras girando e marcando o tempo desde 1410. Ainda no centro da Cidade Velha, a catedral gótica de Tyn contempla a praça cheia de gente ávida pelas atrações espalhadas nesse museu aberto e pela cerveja que os tchecos criaram, a pilsen.
Este registro pode parecer fora do tempo. Mas foi provocado pela nova grafia do nome pelo qual a República Tcheca deseja ser chamada: Tchéquia ou Chéquia (Cesko, em tcheco, com um pequeno acento sobre o C). Assim apareceu nos painéis e outros espaços durante os jogos da Copa do Mundo. Sua imagem e história não mudam, no entanto. Uma joia distante de nós.
Ariosto da Silveira é Jornalista.



