O corpo fechado e a urna aberta: o pensamento mágico na política de Duas Américas (por Nelson Luiz Ferreira Pinto)

A adesão massiva ao chamado "tratamento precoce" no Brasil depara-se frequentemente com [...]

A adesão massiva ao chamado “tratamento precoce” no Brasil depara-se frequentemente com diagnósticos fáceis: de um lado, a denúncia da desinformação; de outro, a instrumentalização política. Ambas as leituras, contudo, são insuficientes por ignorarem um substrato cultural e psicológico muito mais antigo e profundo, que tornou o uso de cloroquina e ivermectina perfeitamente plausível para o imaginário popular. Para compreender o Brasil político, é preciso antes decifrar o Brasil antropológico. O “kit covid” não venceu a racionalidade científica por força de algoritmos, mas porque fez sentido dentro de uma cosmologia muito particular, onde a saúde é uma batalha espiritual, o remédio é um amuleto e a cura é um ato de fé.

Nas tradições que formam a nossa identidade — do catolicismo popular às matrizes africanas e indígenas —, a ideia de criar um escudo invisível contra o mal é central. É o conceito do “corpo fechado“. Sob essa ótica, as pílulas semanais de ivermectina funcionaram psicologicamente como um “patuá farmacológico“. A isso somou-se a nossa histórica cultura ativa de cura, herdeira de benzedeiras e pajés. A recomendação de “ficar em casa até sentir falta de ar” colidia com esse instinto de ação, soando quase como negligência espiritual e prática. Ingerir o remédio saciava a necessidade de intervir ativamente contra a ameaça invisível.

Se o pensamento mágico e a busca pelo corpo fechado eram tão populares, por que essa estratégia não garantiu a vitória de Jair Bolsonaro em 2022? A resposta reside em uma distinção crucial: o anseio popular era por proteção, enquanto a postura do ex-presidente foi interpretada como desprezo pela dor e pela vida. O pensamento mágico funciona quando se apresenta como um escudo contra o medo. Ao minimizar a gravidade da doença e ironizar as vítimas, a liderança rompeu o pacto de cuidado esperado pela população. O cidadão que tomava seu “amuleto” pela manhã chorava a perda de um parente à noite, sentindo-se abandonado por quem deveria acolhê-lo.

A barreira entre o fato burocrático e a imputação política define como cada sociedade digere suas crises: se o atraso na imunização é um cronograma lento, sua leitura popular é uma ruptura moral do pacto de cuidado.”

Essa quebra de conexão manifestou-se com força no atraso da aquisição de vacinas. Trata-se de um fenômeno de dupla face. Sob a lente documental, o compasso de espera burocrático e as propostas da Pfizer sem resposta imediata em 2020 configuram um fato administrativo indiscutível. Contudo, a transformação dessa lentidão contratual em uma “sabotagem deliberada” é uma imputação eminentemente política. Enquanto o governo justificava a demora com a salvaguarda de garantias jurídicas contra cláusulas abusivas das farmacêuticas, a oposição enquadrou o episódio como uma escolha ideológica pela imunidade de rebanho. O eleitorado pragmático, contudo, ignorou os debates jurídicos: leu o atraso como uma falha prática que impedia o trabalhador informal de retornar às ruas,

Esse distanciamento cobrou seu preço sobretudo no eleitorado feminino, guardião histórico da saúde doméstica na periferia. Cruzando o Equador, o cenário norte-americano e a trajetória de Donald Trump oferecem um contraponto revelador. Diante da mesma crise, Trump promoveu fervorosamente a hidroxicloroquina, mas simultaneamente financiou a criação de imunizantes pela Operation Warp Speed. Os americanos, no entanto, não estão imunes ao pensamento mágico; este apenas assume roupagens diferentes de acordo com a antropologia local. Nos Estados Unidos, o pensamento mágico dominante é o do individualismo absoluto e da desconfiança crônica em relação ao Estado. Lá, o “patuá” não era a pílula, mas a imunidade natural e a resistência civil ao uso de máscaras e imposições sanitárias.

A ivermectina e a cloroquina ganharam força nos EUA não como um amuleto de cura ancestral, mas como símbolos de rebeldia política contra o sistema médico estabelecido. Diferente de seu homólogo brasileiro, contudo, Trump ofereceu uma saída pragmática ao eleitorado ao colocar o capital e a ciência americana no topo da narrativa, capitalizando politicamente a vacina como uma conquista nacional, mesmo enquanto afagava o ceticismo de sua base.

O bolsonarismo e o trumpismo provaram ser forças de impressionante resiliência estrutural. A viabilidade dessas correntes ultrapassa o destino jurídico de seus líderes, pois ambas se ancoravam na “nostalgia do bolso” — a memória pragmática do poder de compra perdido — e na demanda visceral pela ordem na segurança pública e no cotidiano.

No Brasil, a discussão sobre a pandemia continuará dividida entre os dados frios da burocracia e as narrativas inflamadas do debate político. Enquanto isso, as urnas podem até se abrir para novos nomes, mas a semente da nossa política continuará sendo plantada no solo fértil de nossa própria antropologia

Nelson Luiz Ferreira Pinto é Bacharel em História e Advogado

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