COLUNA RONALDO HERDY

Selo de acurácia ou selo de vaidade?

Tem gente que confunde criatividade. A proposta de criar um selo de “acurácia” para premiar institutos de pesquisa eleitoral é um belo exemplo disso. Nasceu no TSE como se fosse uma grande inovação, mas corre o risco de entrar para a coleção das ideias que resolvem um problema que não existe.

A pesquisa eleitoral não prevê o futuro. Nunca previu. Mede o retrato do eleitor em um determinado momento. Se o cidadão muda de ideia na fila da seção ou até dentro da cabine de votação, a culpa não é do instituto. É da democracia, que dá ao eleitor o direito de trocar de opinião até o último segundo.

Ao tentar criar um ranking oficial de institutos, o Tribunal pisa em um terreno que não é seu. O TSE existe para garantir eleições limpas e respeitar as regras do jogo. Não é Inmetro, não é ABNT e muito menos cartório de credibilidade. Quem conquista confiança é quem trabalha com método, transparência e histórico de acertos – e quem erra paga o preço diante do mercado e da opinião pública.

Não ajuda o fato de a proposta surgir logo depois da polêmica suspensão da pesquisa Atlas/Bloomberg, que registrou queda de Flávio Bolsonaro após a divulgação do áudio envolvendo o senador e o banqueiro Daniel Vorcaro. Ainda que uma coisa não decorra da outra, a coincidência oferece combustível para as desconfianças que o próprio Tribunal deveria evitar.

As entidades que representam os institutos fizeram o que se esperava delas: rejeitaram a ideia. E com razão. Lembraram que pesquisa de opinião não é exercício de adivinhação. Comparar um levantamento feito antes da votação com o resultado final das urnas é medir coisas diferentes. Entre a fotografia e a apuração existe um personagem imprevisível: o eleitor.

O ministro Kassio Nunes Marques ainda tem tempo para recuar. Não seria sinal de fraqueza, mas de bom senso. O TSE já teve presidentes que entenderam que a autoridade de uma instituição cresce quando ela dialoga, e não quando tenta tutelar quem já desempenha seu papel. Luís Roberto Barroso fez isso ao construir consensos sobre o calendário eleitoral na pandemia e ao abrir espaço para o debate com especialistas e representantes da sociedade, antes de baixar alguma norma legal.

Nem toda novidade merece aplauso. Algumas merecem apenas uma pergunta: para quê?

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