A decisão do Conselho Nacional de Política Energética de elevar para 32% a mistura de etanol na gasolina ainda nem esfriou e já há, dentro do governo, quem defenda estender a medida além dos seis meses previstos inicialmente. Até aí, trata-se de uma escolha política energética. O problema começa quando se tenta embrulhar na decisão argumentos que não resistem aos números.
Passou a circular a tese de que diante de eventual escalada da guerra envolvendo Irã e Estados Unidos, o Brasil deveria importar milho já, para sustentar a produção de etanol e ainda garantir ração para o rebanho e a criação de aves. A narrativa impressiona, mas esbarra na realidade.
O Brasil não importa milho desde 2017. E, se depender das projeções da Agroconsult e da StoneX, por exemplo, não há motivo para voltar a fazê-lo. A segunda safra caminha para um desempenho robusto, com estimativas entre 107,5 milhões de toneladas e 139 milhões de toneladas. Mesmo no cenário mais conservador, a produção supera a da colheita anterior.
Em ano eleitoral e reta final de governo, parece que algumas versões ganham velocidade maior do que os próprios fatos. E quando a política começa a reescrever a matemática, convém desconfiar. Afinal, estatística não vota, mas costuma desmentir muitas narrativas.



