Quando a riqueza deixa de ser bênção e passa a ser vulnerabilidade (Luiz Alberto Cureau Júnior)

O mundo vive uma mudança silenciosa, mas profunda. Grandes potências já não escondem que rotas [...]


O mundo vive uma mudança silenciosa, mas profunda. Grandes potências já não escondem que rotas marítimas, minerais estratégicos, energia e recursos naturais passaram a ser tratados como ativos de segurança nacional. A lógica é simples, quem garante a segurança, influencia o comércio, quem controla recursos críticos, amplia seu poder geopolítico. Foi assim com uma declaração de um líder mundial com relação ao estreito mais importante para a rota do petróleo. E tem sido assim com outras declarações de líderes mundiais.

Nesse cenário, onde está o Brasil?

Somos detentores da maior floresta tropical do planeta, de cerca de 12% da água doce superficial disponível, de uma das maiores biodiversidades do mundo, de extensas reservas de petróleo offshore, da Amazônia Azul e de minerais estratégicos indispensáveis à economia do século XXI, como terras raras, nióbio, grafita e lítio.

Essas riquezas são motivo de orgulho, mas também despertam interesses.

Ao longo da história, recursos estratégicos sempre atraíram disputas. A diferença é que, no século XXI, elas raramente começam com tropas cruzando fronteiras. Iniciam-se por pressões econômicas, dependência tecnológica, influência política, controle de cadeias logísticas, sanções, disputas regulatórias e operações no espaço cibernético.

Isso significa que o Brasil sofrerá uma invasão militar? Provavelmente não.

Mas seria igualmente ingênuo acreditar que, em um mundo onde algumas nações já se atribuem o papel de garantir a segurança de rotas comerciais internacionais ou de proteger interesses considerados globais, recursos como a Amazônia, a água doce e os minerais críticos permanecerão para sempre fora do centro das disputas geopolíticas.

Quanto mais escassos esses ativos se tornarem, maior será seu valor estratégico.

É justamente por isso que defesa nacional não pode ser vista como gasto. Ela é um instrumento de soberania. Diplomacia respeitada, inteligência eficiente, tecnologia, indústria de defesa robusta e Forças Armadas modernas formam um único sistema de dissuasão.

A história demonstra que países fortes negociam de igual para igual. Países vulneráveis acabam tendo suas escolhas condicionadas pelos interesses de outros.

O Brasil é um país pacífico, e isso deve continuar sendo uma de suas maiores virtudes. Mas paz não é sinônimo de fragilidade. Paz se preserva com credibilidade e dissuasão.

A pergunta que deveríamos fazer não é se nossas riquezas despertarão interesses internacionais. Isso já acontece.

A verdadeira questão é outra, quando esses interesses se intensificarem, teremos capacidade política, tecnológica, industrial e militar suficiente para garantir que o futuro da Amazônia, da nossa água, dos nossos minerais estratégicos e da nossa soberania continue sendo decidido apenas pelos brasileiros?

Luiz Alberto Cureau Júnior
General do Exército Brasileiro da reserva
Consultor Climático

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