Você não está se perdendo. Está atravessando (por Dani Balieiro Amorim)

Tem uma experiência que a maioria das pessoas já viveu e quase ninguém sabe nomear. Você não mudou [...]

Tem uma experiência que a maioria das pessoas já viveu e quase ninguém sabe nomear. Você não mudou de cidade. Não perdeu ninguém. A vida, vista de fora, continua intacta. Mas por dentro, algo escorregou. Você olha para a própria rotina e sente, com uma estranheza que não sabe explicar, que virou estrangeira dentro de si mesma.

Não é depressão, necessariamente. Não é crise existencial no sentido dramático. É algo mais silencioso e mais persistente. A sensação de que as ferramentas que faziam você funcionar — aquelas que construíam a sua competência, o seu lugar no mundo, o seu reconhecimento — simplesmente pararam de encaixar. Você continua fazendo as mesmas coisas, mas elas já não respondem do mesmo jeito. Como uma chave que foi moldada para uma fechadura que não existe mais.

A interculturalista, pesquisadora e autora de Parenting Unpacked, Jessica Gabrielzyk, tem um nome para isso: migração de identidade.

O conceito parte de uma observação simples e perturbadora. Nós não nos construímos sozinhos. Nos construímos em espelhos — o cargo que ocupamos, o círculo que nos conhece, a rotina que dominamos de olhos fechados, o reconhecimento cotidiano de quem está ao redor. São referências externas, mas cumprem uma função interna essencial: nos devolvem, todo dia, a sensação de que sabemos quem somos.

Quando uma grande mudança quebra esses espelhos de uma vez, o que desaparece não é só a situação. É a sensação de saber quem se é.

Jessica chama isso de perda da competência sentida — não da competência real, mas daquela certeza quieta de que você é capaz, de que está no lugar certo, de que as suas respostas funcionam. Essa certeza não vive dentro de nós de forma autônoma. Ela depende do contexto. E quando o contexto some, ela some junto.

O que ela percebeu — e que muda tudo — é que essa ruptura não exige passaporte. A migração de identidade não é exclusividade de quem trocou de país, embora a experiência do imigrante seja talvez a mais visível e a mais estudada. Ela acontece sempre que o solo sob os pés se move de forma suficientemente profunda para que as ferramentas antigas deixem de funcionar. E isso, ao longo de uma vida adulta, acontece mais vezes do que gostaríamos de admitir.

Na maternidade, por exemplo. O ser independente, com agenda própria, com identidade profissional consolidada, acorda um dia responsável por uma vida inteira que depende dela para tudo. A pergunta “quem sou eu agora?” que ecoa nos primeiros meses com um bebê não é frescura nem crise passageira — é desorientação migratória legítima, documentada, e ainda assim raramente tratada como tal. A sociedade celebra o nascimento e esquece de perguntar o que acontece com quem nasceu de novo junto.

Na transição de carreira, a mesma coisa. Passamos décadas associando o nosso valor a um cargo, a uma empresa, a um conjunto de competências que o mercado reconhece.

Quando esse chão some — por uma demissão, por uma mudança voluntária, pela aposentadoria — o que se perde não é só o emprego. É o espelho que devolvia, todo dia, a imagem de alguém competente e necessário. Reconstruir o próprio valor sem esse rótulo é uma travessia que poucos sabem que estão fazendo enquanto estão no meio dela.

E no fim de ciclos afetivos também. O término de uma relação longa ou a perda de alguém que organizava o sentido dos dias desfaz uma geografia social inteira — as finanças, as rotinas, as conversas, os planos. O indivíduo precisa aprender a navegar num território cujos códigos antigos já não se aplicam. E faz isso, muitas vezes, sem entender que o que está vivendo tem nome, tem mapa, tem saída.

Em todos esses casos, a pergunta no fundo é a mesma. Quem sou eu agora?

O que torna o trabalho de Jessica relevante não é só o diagnóstico — é o que ela propõe depois dele. Não há fórmula. Não há atalho. E, principalmente, não há retorno ao estado anterior.

Assim como o imigrante que viveu anos fora nunca volta a ser exatamente o mesmo nativo de antes, quem atravessa uma grande ruptura não recupera a versão anterior de si mesmo. Essa versão ficou para trás — não como perda definitiva, mas como parte de uma história que continua sendo escrita. O objetivo, ela diz, nunca é resgatar o passado. É expandir o presente.

Isso exige, primeiro, validar a perda. Entender que se sentir inábil, lento, deslocado no começo de um novo ciclo não é fraqueza — é calibração. O terreno mudou. As ferramentas precisam ser revisitadas. A inteligência e a capacidade não foram embora; o contexto é que ainda não foi assimilado.

Exige também cortar a ilusão do retorno — essa ideia persistente de que em algum momento as coisas vão voltar a ser como eram, de que basta esperar para que o chão firme apareça de novo sob os mesmos pés. Não vai aparecer. O chão que virá será outro. E reconhecer isso, por mais que doa, é o que permite começar a construí-lo.

E exige, talvez o mais difícil de tudo, aceitar a complexidade. Parar de exigir definições rígidas sobre quem você é enquanto ainda está no meio da travessia. Abrir espaço para novos hábitos, novas dinâmicas, novas prioridades — sem precisar abandonar o que é essencial, o que permanece verdadeiro independente do contexto.

Existe uma frase no trabalho de Jessica que resume tudo isso com uma precisão que incomoda um pouco:

“Nós não sentimos saudade apenas de lugares ou de pessoas. O luto mais difícil da vida adulta é o luto por quem costumávamos ser quando o contexto era controlado.”

Lida assim, a desorientação que tantas pessoas carregam em silêncio ganha outro contorno. Não é fraqueza. Não é sinal de que algo deu errado ou de que a escolha foi errada. É evidência de que o contexto mudou — e de que a história está pedindo atualização. A identidade não está desaparecendo. Está sendo reescrita, linha por linha, num território ainda desconhecido.

É desconfortável. É lento. E é, no fim das contas, o que significa crescer sendo adulto.

Você não está se perdendo.

Está atravessando.

*Para conhecer o trabalho de Jessica Gabrielzyk, acesse @jessicagabrielzyk no Instagram ou parentingunpacked.com

Dani Balieiro Amorim é Jornalista, Escritora e Ghost-Writer. Na Accenture, desenvolveu expertise em Comunicação, Gestão de Pessoas, PMO, Treinamento e Desenvolvimento, entre outras áreas. Escreve duas colunas semanais para o jornal Diário de Taubaté e para revistas brasileiras nos Estados Unidos. Tradutora dos idiomas Inglês, Português e Espanhol. Autora do livro infantil “As Aventuras de Ximin em: Floresta Mágica”. Podcast para crianças no Youtube: “Contos para Sorrir”.

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