Inventar ou imitar? (por Luís Giffoni)

Ao final da tarde de vinte e dois de setembro de 1786, na cidade italiana de Vicenza, reuniram-se cerca de [...]

Ao final da tarde de vinte e dois de setembro de 1786, na cidade italiana de Vicenza, reuniram-se cerca de quinhentas pessoas na Academia dos Olímpicos para discutir o que havia trazido maior proveito às belas-artes, a invenção ou a imitação. Os defensores da imitação venceram, pois, segundo uma testemunha dos debates, “não afirmaram senão o que a malta pensa, ou é capaz de pensar”.

De repente, flagrei-me a pensar: o que é melhor para o Brasil, inventar ou imitar? Na cultura, submetemo-nos com frequência ao que vem de fora, copiando muita coisa supérflua e de mau gosto. Quem quiser exemplos folheie as revistas e os jornais ou veja a televisão. Até parece que a inauguração de uma pracinha em Nova York e o aniversário de um ator em Hollywood são efemérides brasileiras, tamanho o espaço que ocupam. Somos mesmo um povo faminto, a julgar pelo fascínio que jantares em Washington exercem sobre nós. Quando refeições merecem tanta notícia, estamos a caminho não da indigência alimentar, mas cultural. Nessa toada, no dia em que o Cheeto da Casa Branca ficar doente, teremos vigília, velas, promessas e milhares de brasileiros cantando música cáuntri em prol da saúde do amarelão.

O antigo dilema, entra governo, sai governo, toma conta de Brasília: devemos importar ou desenvolver tecnologia própria? Repisam-se os argumentos costumeiros: não se deve inventar a pólvora; é mais barato comprar know-how lá fora; nascemos, pela extensão climática e territorial, com vocação para a agricultura; o momento é das nossas commodities; devemos deixar esse negócio de tecnologia para os norte-americanos e chineses, anos-luz à nossa frente. Existem, é claro, os paladinos da autonomia, defenestrados pela eterna alegação: não temos dinheiro – e tecnologia. E as decisões ficam para depois.

Em consequência, o fosso se alarga, e sucumbimos, uma vez mais, ao subdesenvolvimento. Quando nada, possuímos setores de ponta que pouco devem aos estrangeiros. Uma maneira de incentivá-los seria de fato consumar o casamento entre a universidade e a indústria. Em outras palavras, transformar a pesquisa em patentes. Os chineses oferecem um caminho adicional. Desenvolveram as próprias novidades. A baixo custo. Souberam escolher.

Inventar ou imitar? A questão continua aberta, porém Vicenza ainda pode lançar mais luz sobre ela. Em 1786, a cidade italiana estava decadente após o auge no século 16, quando a ousadia de criadores como Palladio revolucionou sua arquitetura e a transformou em referência na Europa. Teria a ausência de ímpeto e força motivado o resultado do debate?

Por falar em ímpeto e força, a testemunha que citei foi Goethe. Em viagem pela Itália, ficou seduzido pela cultura peninsular, a ponto de escrever duas obras ditas italianas, Ifigênia e Torquato Tasso, sem, contudo, perder a identidade de autor. A história de Fausto tampouco é original. Alguém, entretanto, a separa de Goethe? Seu gênio fez da imitação uma invenção, criando uma obra-prima.

A moeda, quando lançada, pode dar cara ou coroa. É preciso fazer a escolha, com toda a informação disponível. Se inventarmos apostar na parada da moeda em pé, aí sim teremos um problema.

Luis Giffoni é Escritor, Membro da Academia Mineira de Letras. Prêmio Jabuti

Luís Giffoni lançou recentemente o romance “Linha de Neve”, que aborda uma aventura nas montanhas dos Andes. Para a compra online: https://www.amazon.com.br

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