
Quem acompanha a política mineira não se espanta diante das reviravoltas e incertezas no processo de escolha de candidatos aos principais cargos eletivos, particularmente o de governador. Tudo corre num jeito bem próprio da tradição, em muitos casos enriquecendo o folclore em torno de figuras marcadas por aquele rótulo de “raposas”, capazes de astutamente dar voltas e mais voltas para confundir seu roteiro e propósito. Exemplo maior desse estilo, Benedito Valadares conduziu por décadas os passos de um dos grandes partidos da época, o PSD. Embora graduado em Odontologia e Direito, não exerceu nenhuma dessas profissões, mas lecionou e foi vereador e prefeito de Pará de Minas, sua terra natal. Tornou-se um político essencial.
Projetou-se como interventor no período de Getúlio Vargas e manteve no PSD uma permanente função de chefe e conselheiro. No hotel do centro de BH, seu proprietário, Antônio Luciano Pereira Filho, um dos maiores latifundiários urbanos e rurais de Minas e deputado federal cassado pelo AI-5, mantinha um apartamento à disposição do chefe. Era lá, segundo ficou na história, que Valadares confabulava com os outros líderes do partido, não todos de uma vez, porque aí se tornava comício, segundo norma do raposismo. O decidido lá, aí sim era levado como prato feito à convenção do partido. Num sistema não escrito, mas rigorosamente observado, não era admitida maior discordância pelo temor dos convencionais em cair em desgraça diante da cúpula.
Também viraram praxes outras práticas nesse meio e na batalha de bastidores pela escolha dos candidatos. Até hoje muitos sabidamente se colocam mesmo sabendo não possuir cacife para governador, mas, aproveitando o período de maior visibilidade, pensam na verdade em captar uma indicação para vice-governador, senador ou deputado, porque para o político nada é pior que ficar sem mandato. Entrar na cabeça da lista, mesmo como vice, garante uma posição cômoda e com potencial de um dia sentar na cadeira do governador e ter à mão a caneta para ajudar os amigos e a si mesmo em lances futuros.
Se Valadares marcou pela matreirice a sua longa liderança no PSD, sairia do lado adversário, a UDN, outro notório adepto do estilo mineiro. Hélio Garcia, o mais pessedista dos udenistas, no dizer de alguns contemporâneos, enriqueceu o folclore político. Tinha o seu jeito, a ponto de escapar das críticas diante de certas atitudes incomuns entre políticos: “Coisas do Hélio” era a explicação dos mais chegados a ele. Possuía enorme capacidade de resistir a pressões diversas. Impunha o ritmo e jogava com o tempo. Ocultava as suas preferências e tendências e só decidia nos fins de prazos.
Tendo tido participação decisiva na campanha de Tancredo Neves, ao chegar a sua própria sucessão, nas eleições de 1986, como governador e reconhecidamente bom articulador, Hélio deixou correr o processo de escolha do candidato situacionista. A mídia, como lhe é próprio, especulava. A lista crescia hoje, diminuía amanhã. O deputado federal Carlos Cotta permanecia citado e parecia caminhar para a confirmação.
Naquele clima de indefinição, viajei para o exterior. Numa época de limitados meios de comunicação, permaneci semanas sem acompanhar os acontecimentos locais. Ao retornar, ainda no aeroporto do Rio corri à banca de jornal. E lá estava: Hélio tinha anunciado Joaquim de Melo Freire, deputado estadual remanescente da linha-dura da UDN.
Dia seguinte encontrei Lomelino Couto no palácio. Discreto, fiel escudeiro, amigo e assessor, testemunhava praticamente todas as ações do governador. Perguntei por que tinha sido escolhido quem não frequentara a lista dos candidatáveis. Lomelino interpretou: “Hélio entrou no elevador, aqui no térreo, com o nome do Cotta, ao sair no salão nobre, no primeiro andar, anunciou Melo Freire”.
Melo Freire renunciou à indicação. Newton Cardoso elegeu-se governador pelo PMDB.
Ariosto da Silveira é Jornalista.




