Um Anjo a bordo (por Lindolfo Paoliello)

- Os anjos, com certeza, sentem solidão, são criaturas sensíveis, sabia? [...]

  • Parece que está parando…

A vozinha despertou-me da sonolência do vôo e só então percebi que ao meu lado viajava uma garota de uns nove anos, de olhos muito meigos e com uma carinha triste.

  • É, o avião pára, às vezes – eu disse, e acrescentei: – para entrarem os anjos.

Ela excitou-se:

  • E eles se assentam aqui, com as pessoas?
  • Claro, ao meu lado mesmo já viajaram vários.
  • Mas eles têm asas, para que precisam de avião?
  • Não sei, vai ver que eles se cansam em longos vôos, mas acho que preferem mesmo o avião para poderem conversar um pouco, saber das coisas da terra, sabe como é, o céu, você vê, é tão grande, deve dar muita solidão.
  • É mesmo, eu já estava sentindo uma coisa estranha só de olhar pela janela, acho que era solidão.

Observei bem aquela carinha falante ali ao meu lado e reparei que ela, de fato, não era triste, seus olhinhos sorriam quando ela falava, e despertei de vez.

  • Os anjos, com certeza, sentem solidão, são criaturas sensíveis, sabia? E gostam de expressar seus sentimentos para as pessoas, sentimentos muito bonitos, afinal são seres celestes.

A menininha olhou-me, franziu as sobrancelhas e perguntou-me:

  • Você já conversou com um anjo?
  • Ora, muitas vezes, para dizer a verdade há um que sempre viaja ao meu lado, e é um anjo bonito, parece esculpido pelos artistas do Renascimento, você já estudou o Renascimento?
  • Não, o que é?
  • Os artistas faziam tudo com muito equilíbrio, linhas muito puras, nada sobrava, era tudo exato, perfeito, o rosto de uma pessoa, por exemplo. O desse anjo que costuma viajar comigo é assim, traços finíssimos, um encanto. Faz lembrar a Scarlett Johansson, você conhece? É uma artista de cinema.
  • Puxa, bonito assim? E sobre o que vocês conversam?
  • Um pouquinho de tudo, eu conto as coisas que andam acontecendo lá embaixo; ele às vezes fica muito sério e pensativo, mas depois dá um sorriso bonito e começa a falar do céu, de outros anjos, coisas incríveis. Mas a gente gosta de falar mais é das estorinhas que ele inventa e eu também e ele pede sempre que eu repita a primeira que lhe contei, em que era uma vez um sapo, que era eu mesmo, que se transformou em gente quando foi tocado por um anjo. E todas as vezes em que eu conto essa estorinha tenho a impressão de que aquele anjo fica mais parecido com a Scarlett Johansson.
  • Você é maluco, sabia? Ei, olhe ali! veja que nuvem diferente.
  • Aquela é a estação Alfa, onde de vez em quando o avião pousa para a gente conhecer a vida numa nuvem.
  • Mas é possível a gente ver de perto como são as coisas numa nuvem?
  • Claro que sim. E também é possível conhecer-se as estrelas, viajar pelo infinito, é só a gente se acostumar a olhar um pouco para cima, para além das coisas que estão próximas.

Eu falava sem parar e, no entanto, a menininha dormia. Tinha uma expressão feliz no rosto. Tentei ler o jornal, mas não consegui concentrar nele minha atenção. Eram notícias lá de baixo, mundanas, corriqueiras. Imaginei que ao meu lado ia um anjo com cara de Scarlett Johansson e ri sozinho dessa ilusão incrível que é a sensação de não pertencer a esse mundo, quando se está a oito mil metros de altura e a 900 quilômetros por hora.

Lindolfo Paoliello é cronista e se prepara para lançar uma nova coletânea de crônicas: “A guerra de cada um”.

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