DoidiMai (por Glauco Saraiva)

No colégio Zeta Jota, o evento já tinha virado tradição. Todo dia 2 de maio, os professores trocavam de [...]

No colégio Zeta Jota, o evento já tinha virado tradição. Todo dia 2 de maio, os professores trocavam de lugar: a professora de Literatura dava aula de Matemática, o de Física enfrentava a Geografia, o de Biologia se aventurava pela História, e assim por diante.

A brincadeira começara cerca de cinco anos antes, quando Marcos, professor de Biologia, entrou na sala dos professores com a ideia do rodízio. Tinha ouvido dois alunos fazendo graça com a data: “dois de maio”, diziam eles, “DoideMai”. Bastou isso para que Marcos enxergasse ali uma oportunidade. Propôs um dia diferente, meio louco, meio lúdico, valendo alguns pontos extras para salvar os desesperados e, de quebra, despertar, por outro caminho, o interesse de quem já andava perdido no andamento ou no entusiasmo pela matéria.

De algum modo, a experiência aproximava alunos e professores. Primeiro, porque quebrava a rotina. Segundo, porque era irresistível ver seus mestres em território estranho, tentando explicar assuntos sobre os quais não tinham o mesmo domínio. Havia professor de História balanceando reações e professora de Inglês encarando equações.

Mary, professora de Literatura, entrou ressabiada para lecionar Física. Logo de cara viu escrito no quadro-negro: Colégio Zeta Jota: entra burro, sai idiota!! Deu os parabéns ao poeta anônimo com um sorriso irônico, balançando de leve a cabeça. Ela sabia que os alunos estavam estudando as três leis do movimento de Newton. Preparou-se para o dia, como faziam todos os professores do ZJ. Os paralelos para ação e reação já estavam traçados. Ainda assim, foi surpreendida pelos dois alunos mais endiabrados da turma.

A diversão da dupla era ler o manual do professor e antecipar, em voz alta, a palavra que fecharia o raciocínio. Faziam isso antes mesmo que o professor chegasse ao fim da frase. Já tinham sido expulsos várias vezes por essa arte infame, principalmente nas aulas de Biologia. Tonhão Malvadeza, o disciplinário, preparava-lhes o passaporte para casa com frequência.

Naquele dia, porém, a dupla preparou algo mais refinado para tentar desequilibrar Mary. Vieram com perguntas de física quântica, assunto que nem pertencia à grade curricular e sobre o qual, provavelmente, também sabiam muito pouco. Um perguntou sobre emaranhamento. O outro se apressou, fazendo caretas pretensamente sensuais e gestos teatrais:

— Não, não. Explique, por favor, a superposição.

Mary respirou fundo. Por sorte, seu último namorado era físico teórico. Nos sábados à noite, entre queijo, vinho, música e beijos, rolavam também pitadas de filosofia, literatura, cosmologia e, de vez em quando, física quântica. O assunto, portanto, não lhe era completamente estranho. O que, convenhamos, em física quântica já é quase uma especialização.

Enquanto fuzilava a dupla com seus olhos esverdeados, pensou: esses dois ainda vão me pedir pontos na recuperação. Então uma ideia aflorou. Eles tinham acabado de ler Grande Sertão: Veredas, preparando-se para o Enem.

— Lembram-se de Diadorim, certo?

A turma ficou atenta.

— Pois bem. Para Riobaldo, Diadorim vivia numa espécie de superposição. Por isso ele não compreendia a própria paixão. A identidade da pessoa amada oscilava entre possibilidades, como uma partícula antes da medição. Só depois da morte, quando o corpo de Diadorim enfim é revelado, a verdade se impôs. Schrödinger diria…

— É gata, a morta! — interrompeu o mais ousado da dupla, com um risinho de canto, achando que tinha desarmado a professora.

Na verdade, ela adorou o jeito como ele embarcou na analogia, apesar do tom desumano da frase. Mas, sabia que com os dois não era conveniente a menor abertura. Então, sinalizou o acerto, mas continuou sem dar tempo para mais nada:

— Exatamente. Antes disso, tudo permanecia suspenso: desejo, dúvida, amizade, amor e impulso. Riobaldo observava Diadorim, mas nunca conseguia medir inteiramente aquilo que tinha diante dos olhos, e isso atiçava seu interesse mais do que qualquer feitiço. Já para o leitor, a descoberta final reorganiza tudo o que veio antes. Como se Guimarães, por mágica, duplicasse as páginas do livro escrevendo uma única linha. Não chega a ser retrocausalidade, para usar um termo físico. Diadorim não muda nada em seu passado. Rosa altera a percepção do leitor.

O silêncio se instalou. Muitos não entendiam quânticas de nada; ainda assim, por terem lido o livro, acompanhavam a professora. Ela falava de algo incerto, misterioso, que apenas no instante da averiguação assumia um aspecto definido.

Quando a primeira palma estalou, puxou facilmente as demais. Porém, o mais acanhado da dupla insistiu, levantando a mão:

— E Riobaldo?

Mary não se intimidou:

— Riobaldo é como um elétron diante de duas fendas, atravessando possibilidades sem jamais saber por qual vereda passou. O pacto, real ou inventado, molda sua trajetória como uma força invisível. Basta que a possibilidade exista e que ele passe a acreditar nela para que todo o sertão mude ao seu redor. Ele não sabe se vendeu a alma, se venceu por coragem, se foi conduzido pelo destino ou se contou a si mesmo a história necessária para fazer o que antes apenas intuía. Enquanto tenta compreender o que aconteceu, transforma-se em chefe, narrador e cúmplice do próprio mistério.

Mary tentou encerrar a aula, mas outro aluno levantou a mão:

— Ah, não! E o emaranhamento?

No fundo da sala, Aquiles, o professor de Física, em horário livre, assistia a tudo sentado numa das carteiras. Mary apontou para ele:

— Essa fica para o especialista.

Aquiles levantou-se devagar e entrou no embalo da colega:

— Vou apelar para um clássico da sétima arte: o filme E.T. Na cena em que o extraterrestre bebe, Elliott, o garoto, fica embriagado do outro lado da cidade. O estado de um repercute no outro imediatamente, embora estejam separados por uma grande distância. No emaranhamento, duas partículas se comportam como se estivessem ligadas, mesmo estando muito longe uma da outra. Quando medimos uma, já sabemos o resultado correspondente da outra. Einstein não achou que fosse possível. Chamou isso de ação fantasmagórica à distância. O “sino” da confirmação só tocou depois da morte dele.

Mary cruzou os braços e sorriu:

— Não usou Física nem Literatura, mas, de algum modo, funcionou.

— Foi o que me veio na velocidade da luz para acompanhar vocês — respondeu ele, com o olhar em festa.

Mary riu e abraçou o amigo.

Os alunos voltaram a se agitar. Batiam três vezes com as mãos nas carteiras, intercalando as pancadas com o grito:

— DoideMai!

Pá, pá, pá.

— DoideMai!

Pá, pá, pá.

Os dois endiabrados permaneceram calados, ainda procurando no manual do professor alguma resposta pronta.

Pela primeira vez, não encontraram.

Glauco Saraiva é Escritor.

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