
É lugar de disputas e extravasamento de paixões. Cada jogo é uma história. O apaixonado puxa pela memória ora para certa goleada sobre o rival, ora para o doloroso bombardeio alemão de 7 a 1 em 2014, assombração e bandeira de alerta a cada Copa do Mundo.
Está sessentão, idade para acentuarem-se os esquecimentos da senilidade. Assim pode ser entendida a ausência de menções a alguns craques que atuaram fora do campo, mas acertaram os passes a fim de montar o palco para a bola rolar na Pampulha. Jorge Carone Filho estava nesse time.
Carone veio de Visconde do Rio Branco, vizinha de Ubá, terra natal do ex-governador Ozanam Coelho e da saborosa manga-ubá ou coquinha. Trouxe fama de fazedor. Lá, ele mesmo contava, como prefeito trocou com o governador Bias Fortes o direito de indicar delegado por umas tantas pontes que o governo costumava distribuir aos municípios. Calçou as ruas de terra, esburacadas nas chuvas. Fui lá nessa época e me intriguei com um trecho de uns vinte metros da avenida principal em terra bruta. Perguntei a ele, na Assembleia Legislativa, se era verdade ou intriga sobre ter pulado aquele pedaço porque ali morava um adversário político. Não escondeu: verdade.
Corpulento, ruidoso, como deputado estadual eleito em 1958 rapidamente recarimbou o seu histórico de pegar a tarefa à unha. Dizia que tinha de abrir espaço na Assembleia, dominada por meia dúzia de deputados de atuação agressiva. Não estranhou que agarrasse a sua primeira causa. O futebol estava no seu currículo. Muito alto, tinha sido goleiro do Nacional de Visconde do Rio Branco e passou até pelo Botafogo do Rio. Nada surpreendente, portanto, ter feito um projeto a fim de angariar recursos para novo estádio em Belo Horizonte, previsto para um canto da reserva da Universidade Federal na Pampulha, àquela altura meio ociosa porque a maioria dos cursos estava espalhada pelo centro da cidade. Pôs o projeto literalmente debaixo do braço. Não o deixava quieto nas comissões, ia atrás de um relator, cobrava, acompanhava as votações. Fazia o mesmo no plenário. Conseguiu empurrar o projeto pelas fases regimentais, segundo ele ajudado pelo também pessedista Hermelindo Paixão. A outro pessedista, Bias Fortes, como governador coube sancionar a criação do “Estádio Minas Gerais”. A fonte dos recursos era a loteria estadual. Estava dado o pontapé inicial.
Mas a bola política, nos pés da UDN, rolou contra Carone. O governo militar e os udenistas de 64 o neutralizaram. Prefeito eleito de BH no ano anterior, manteve o seu estilo, com o desejo, segundo ele, de honrar o seu lema “Carone faz”. Acumulava polêmicas. Uma das maiores foi ordenar o corte, de madrugada para evitar protestos, dos fícus ladeando a avenida Afonso Pena, a fim de eliminar os “amintinhas” que infestavam as árvores e cujo apelido tinha a ver com o prefeito anterior, Aminthas de Barros, do PTB. Mas a verdade é terem sido políticas as razões de sua destituição por um esquema montado por Magalhães Pinto. Em madrugada de fevereiro de 1965, sua queda era registrada pelo repórter Antônio Silveira Soares na capa do matutino “Diário da Tarde”. Estava cassado por um só voto contrário da Câmara Municipal. Indicado pelo amigo Magalhães, Oswaldo Pierucetti tornou-se então prefeito.
Nas recentes comemorações dos 60 anos do estádio, Carone quase não foi lembrado. E apesar de ser nome oficial, Magalhães Pinto também foi para escanteio. Ficou somente o nome dado pelos torcedores, Mineirão.
Ariosto da Silveira é Jornalista.



