Modus ponens: que bicho é esse? (por Elson Pimentel)

Inferir é arriscar. Cada vez que conectamos causa e efeito, apostamos que acertamos, e nem sempre [...]

Inferir é arriscar. Cada vez que conectamos causa e efeito, apostamos que acertamos, e nem sempre percebemos o nosso erro. No artigo anterior publicado em Capa Brasil, Onde começam os pensamentos?, uma frase de Hannah Arendt me levou a refletir sobre as inversões criativas do pensamento. Algumas das melhores ideias da humanidade nasceram quando alguém decidiu caminhar na direção contrária. Agora mostro o reverso: como a mesma inversão, quando descontrolada, se torna armadilha.

Nem toda inversão conduz a uma descoberta. Algumas conduzem apenas a um erro muito convincente. É aqui que entra uma estranha criatura da lógica chamada modus ponens. Ou, mais precisamente, alguém que nos confunde e se faz passar por ele.

Conta uma velha piada que um homem observava um cachorro jogando pôquer. Depois de alguns minutos, comentou com o dono:

— Que cachorro inteligente! Joga muito bem!

O dono respondeu:

— Não joga tão bem assim, não. Toda vez que recebe uma carta boa, abana o rabo.

A graça está no choque entre duas avaliações. O observador está impressionado porque o cachorro joga pôquer. O dono percebe algo que o outro não viu: o animal entrega involuntariamente informações preciosas aos adversários.

Mas há algo mais aqui. A piada esconde uma estrutura que nos engana com frequência. O dono explica a regra: quando o cachorro tem carta boa, abana o rabo. A armadilha aparece se alguém inverter a direção: ‘Ele abanou o rabo. Logo, tem carta boa.’ A consequência é real — o rabo se move. A causa, no entanto, continua em aberto. Talvez ele abane por outros motivos: calor, excitação, hábito. Talvez abane sempre, e apenas por coincidência tenha carta boa naquele momento. O dono conhece a regra num sentido. Quem a inverte, no outro.

Durante muito tempo achei graça apenas no absurdo da situação. Hoje suspeito que a piada esconde uma lição sobre lógica: a mesma estrutura que nos parece convincente no pôquer, nos engana em lugares muito mais sérios.

A seta da inferência

Apesar do nome latino, o modus ponens é um raciocínio que usamos desde a infância.

1- Se chover, a rua ficará molhada.
2- Está chovendo.
3- Logo, a rua ficará molhada.

Nada de misterioso. A dificuldade aparece quando tentamos percorrer a seta na direção contrária.

1- A rua está molhada.
2- Logo, choveu.

Talvez sim. Mas talvez alguém tenha lavado a calçada. Talvez um cano tenha estourado. Talvez um caminhão-pipa tenha passado por ali. A consequência existe. A causa continua em aberto.

A diferença parece pequena. Não é. Boa parte dos nossos erros de julgamento nasce exatamente nesse ponto.

A extensão na propaganda

Uma propaganda mostra um jovem aprovado no vestibular. A legenda diz: ‘Quem estuda conosco passa.’ O espectador conclui: ‘Ele passou. Logo, estudou conosco.’ Mas talvez tenha estudado sozinho, talvez tenha feito três cursinhos simultaneamente, talvez seja simplesmente excepcional. A aprovação é real. A origem, incerta.

A propaganda não mente necessariamente. Apenas convida o espectador a completar sozinho um raciocínio duvidoso.

A origem na savana

Em compensação, existem situações em que inferir causas rapidamente pode ser uma questão de sobrevivência.

Imagine dois caçadores pré-históricos. O primeiro vê um arbusto se mover e conclui: “Deve ser o vento.” O segundo conclui: “Pode ser um leão.” Se não houver leão, o segundo desperdiçou um pouco de energia. Se houver leão, o primeiro talvez não deixe descendentes.

Ou então: ao longe surge uma pequena luz. Pode ser um vaga-lume. Mas pode ser um inimigo acendendo um cigarro.

Esperar por evidências definitivas pode ser uma excelente estratégia num seminário de filosofia. Nem sempre parece uma boa ideia diante de um predador ou de um inimigo.

Foi observando situações desse tipo que Robert Nozick sugeriu uma ampliação interessante da noção de racionalidade. Raciocinamos bem não apenas para descobrir verdades, mas para navegar num mundo incerto. A evolução não premiou organismos infalíveis. Premiou organismos que cometiam erros menos fatais.

O mecanismo que nos salvava na savana não desapareceu. Apenas mudou de habitat. E em tribunais, eleições e mercados, o que era vantagem tornou-se vulnerabilidade.

O efeito na política

Nas redes sociais, um post mostra um político em um evento. A legenda sugere: ‘Quem participa de eventos como este, tem compromisso com a causa.’ O leitor conclui: ‘Ele participou. Logo, tem compromisso.’ Mas talvez tenha ido por obrigação de agenda. Talvez não soubesse o que o evento representava. Talvez tenha sido convidado como centenas de outros. A presença é documentada. A intenção, não.

O que acontece aqui é uma inversão silenciosa do modus ponens. A forma correta seria: ‘Se tem compromisso com a causa, então participa do evento. Tem compromisso. Logo, participa.’ A forma invertida, que a fake news explora, é: ‘Se tem compromisso, então participa. Participou. Logo, tem compromisso.’ A consequência é real. A causa, inventada.

O efeito no tribunal

É no sistema de justiça, porém, que o erro revela sua face mais séria.

Um crime ocorre sem testemunhas. Não há prova material conclusiva. Mas existe um suspeito. Ele discutiu com a vítima. Foi visto nas proximidades. Possui antecedentes violentos. Demonstrou comportamento estranho após o ocorrido. As peças parecem se encaixar. ‘Só pode ter sido ele.’ A frase soa razoável.

A lógica faz uma pergunta desconfortável: as evidências apontam necessariamente para ele, ou apenas não contradizem a hipótese de que seja ele? A diferença parece pequena. Não é. Dela pode depender a liberdade de um inocente.

Há um agravante nessa pressa: o viés de retrospectiva. É a nossa tendência de reescrever o passado para que o presente pareça inevitável. Quando o resultado surge, inventamos uma narrativa que o justifique. É o modus ponens invertido em ação: o evento já aconteceu; logo, ele precisava acontecer; a prova já está diante de nós, logo, a intenção que atribuímos a ela deve ser a causa real. Não apenas erramos a lógica; convencemo-nos de que ‘já sabíamos’ o tempo todo.

Que bicho é esse?

O cachorro do pôquer, a propaganda do cursinho, a savana, a política e o tribunal parecem habitar mundos diferentes. Mas todos revelam o mesmo traço da mente humana. Somos extraordinariamente bons em encontrar padrões. E extraordinariamente impacientes diante da incerteza. Queremos descobrir quem merece o crédito. Quem merece a culpa. Quem causou o quê. Quem está por trás de cada acontecimento.

Nossa mente foi moldada na savana. O desafio é que hoje ela precisa funcionar em tribunais, eleições, mercados financeiros e redes sociais. Então, o mesmo mecanismo mental que nos ajudou a sobreviver na savana, nos faz reagir rapidamente a perigos, nos permite formar hipóteses úteis, é também o mecanismo que produz preconceitos, produz julgamentos precipitados, produz teorias conspiratórias e produz fake news.

Às vezes acertamos. Às vezes apenas contamos uma boa história para nós mesmos.

Vimos anteriormente que algumas ideias importantes surgem quando experimentamos inverter a direção de um pensamento. A lógica acrescenta uma advertência: algumas inversões são criativas; outras, enganosas.

Talvez a racionalidade consista justamente em distinguir umas das outras. E esse bicho — a pressa de transformar hipóteses em certezas — é muito mais difícil de capturar do que parece.

Elson Luiz de Almeida Pimentel
Mestre em Filosofia pela UFMG

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