Viagem no tempo (por Lindolfo Paoliello)

Quem sabe? E se voltando, estando lá, aquilo tudo revivesse, mesmo que para ele só, intimamente. [...]

Volta. Retorno. Busca: o clique; a exata conexão entre o presente e o passado. Isto é possível?

Fascina-me e me angustia a conclusão de Bachelard de que “o instante já é solidão”. Estale os dedos e zás! É um momento acabado; um turbilhão que se move em sentido inverso, como um ciclone que se afasta.

Guto quis empreender essa viagem em busca de um instante e, tentando resgatar o tempo, moveu-se no espaço. Dirigia e pensava. Durante quinze anos evitara voltar à Universidade. Sabia que não iria encontrá-la como a deixou; os prédios estariam velhos, alguns teriam sido derrubados, já não haveria, com certeza, as arvores, e as pessoas, estas ele sabia que já não estavam lá.

Nem pensar. Embora pensasse sempre: e se? Quem sabe? E se voltando, estando lá, aquilo tudo revivesse, mesmo que para ele só, intimamente. Sobretudo, aquilo. Ah! Aquilo ele tinha que lembrar e lembraria, voltando lá…voltando lá…voltando!

Veja só, não importa como estão as outras coisas, a praça de esportes está exatamente como antes. Cheguei aqui e basta. Acho que nem vi o prédio da reitoria, a casa do reitor e as árvores. Ou fiz que não vi, não importa. É esta a quadra de tênis, é este o bar. Ela estava aqui, exatamente aqui. Nunca havia se aproximado de nenhum de nós em trajes de tênis e estava ali, a esposa do reitor, tão linda. Agora ela se encosta no balcão do bar, repousa a raquete no peito cruzando os braços, e diz: “E a namorada, você não trouxe?” Não, ela havia ficado em meu quarto, terminando de ajeitar as minhas malas, e, afinal, era eu que estava me despedindo, ela ia ficar. “Você já se despediu do reitor?” Sim, eu havia acabado de me despedir e tinha ido dar uma última olhada na quadra de tênis. Ah! Foi neste ponto: ela olhava, displicente para a quadra, e, sem se voltar, falou que gostava de me ver jogar: “Sou sua fã, sabia?” E não me olhou, agora eu sei, disso é que eu queria ter certeza. Continuou olhando para a quadra de tênis, como se estivesse pensando alto, e disse algo sobre me ver jogar em uma das partidas finais do campeonato nacional, no Rio: “De surpresa. Um dia eu lhe faço essa surpresa”

Nesse momento é que chegaram as amigas, esposas de outros professores, e ela voltou-se para elas com a maior naturalidade, como se eu não estivesse ali. Falaram durante algum tempo e eu não sabia se devia ficar ou me despedir, e as amigas se foram. Eu havia me distraído e, quando percebi que estávamos sozinhos, ela sorria e me olhava: “Você não se importa se eu for vê-lo jogar, não é?” Disso é que eu queria me lembrar: ela não disse “se nós formos vê-lo jogar”, é isto! “Você não se importa se eu for vê-lo jogar, não é?” Mas logo passou a falar de outras coisas, da Universidade e dos alunos e, pelo menos por duas vezes, tive um sobressalto ao ver de novo aquele sorriso e aqueles olhos postos em mim.

No entanto, não tinha nada a ver aquele sorriso com o que ela falava, coisas banais, do dia-a-dia da Universidade. E as amigas voltaram e ela me deu as costas, sempre da maneira mais natural: ali estava a esposa do reitor, aqui um aluno, e foram se afastando, e ela voltou-se e disse: “Então, felicidades pra você, ouviu? Que tudo corra bem.”

E ela se foi e foi-se o tempo; comecei a advogar e acabei deixando o tênis. Que coisa, quinze anos se passaram, mas a quadra é esta e o bar é este…

Guto ainda ficou por algum tempo, para depois entrar no carro e deixar o campus cantarolando, sereno, sem olhar para trás.

Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O país das gambiarras, Nosso alegre gurufim e A rebelião das mal-amadas.

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