
Tem uma frase de Clarice Lispector que me acompanha desde que eu e meu marido decidimos montar nossa própria agência editorial. Ela diz: “Coragem não é ausência do medo; é saber que existe algo mais importante do que o medo.” Pois bem. Descobri, nos últimos meses, que empreender é exatamente isso: sentir o medo de não ser vista, de não ser levada a sério, de olhar para o telefone e ele não tocar — e mesmo assim continuar.
Somos uma dupla: eu, jornalista, escritora, roteirista; ele, publicitário. Acreditamos que palavras e estratégias podem transformar negócios. Só que ninguém avisa que, quando a gente abre uma empresa, a primeira parede a ser derrubada é a da invisibilidade.
Ele passa horas montando propostas. Estudando cada cliente como se fosse um briefing de guerra. Criando portfólios, ajustando argumentos, tentando convencer as pessoas a acreditarem no nosso potencial. E eu fico do lado, com meus textos, minha escuta, minha aposta de que a comunicação verdadeira ainda é o maior diferencial. Mas a resposta, muitas vezes, é o silêncio. Um silêncio educado, desses que não dizem não, mas também não dizem sim. Ficam ali, no limbo. E nós ficamos com a gente mesmo, no escritório que às vezes é a mesa da cozinha, pensando: será que estamos fazendo algo errado? Será que nosso trabalho não é bom o suficiente?
A dificuldade de emplacar uma agência editorial no Brasil é uma metáfora antiga: convencer alguém de que palavras têm valor de mercado. Que escrever bem e comunicar com estratégia não é dom, é técnica, é entrega, é prazo, é escuta. Que um texto bem-feito, uma campanha bem pensada, podem mudar o posicionamento de uma marca, a alma de um projeto. Mas como provar isso sem que o cliente atravesse a porta? Como mostrar o sabor do prato se ninguém quer experimentar?
Descobrimos, com o tempo, que o empreendedorismo para quem trabalha com criação tem uma camada extra de desafio. Não basta ter capacidade técnica. É preciso, antes de tudo, convencer o outro de que você existe. É um trabalho duplo: fazer e, ao mesmo tempo, provar que o que você faz importa. E isso cansa. Machuca. Às vezes, faz a gente querer desistir e voltar para o CLT, onde o salário cai no dia certo e ninguém precisa acreditar em você — só cumprir a tarefa.
Mas nós não desistimos.
Começamos a perceber os pequenos sinais. Um cliente que voltou depois de meses. Um projeto que saiu do papel e rendeu frutos. Um “obrigado” sincero no final de uma entrega. Aos poucos, o escritório invisível foi ganhando contornos. As paredes continuavam as mesmas — às vezes ainda é a mesa da cozinha —, mas algo mudou: a gente tinha parado de esperar que os outros validassem nosso trabalho para validá-lo nós mesmos.
O Sebrae fala muito sobre gestão, sobre planejamento, sobre números. Tudo importante. Mas, para nós, o maior aprendizado do empreendedorismo foi outro: acreditar antes que o outro acredite. Confiar na mão que escreve e na mão que argumenta. Na voz que telefonou e na voz que ficou em silêncio ao lado, mas nunca desistiu. Empreender, no fundo, é um ato de fé. Não religiosa. Mas daquelas que cabem no peito de quem decide, junto com quem se ama, que o seu trabalho merece existir.
Hoje, nossa agência segue pequena. Mas segue. E cada cliente conquistado é uma vitória que não cabe só no extrato bancário. Cabe na história de quem, mesmo invisível, continuou escrevendo — e propondo.
*Artigo também publicado no Diário de Taubaté
Dani Balieiro Amorim é Jornalista, Escritora e Ghost-Writer. Na Accenture, desenvolveu expertise em Comunicação, Gestão de Pessoas, PMO, Treinamento e Desenvolvimento, entre outras áreas. Escreve duas colunas semanais para o jornal Diário de Taubaté e para revistas brasileiras nos Estados Unidos. Tradutora dos idiomas Inglês, Português e Espanhol. Autora do livro infantil “As Aventuras de Ximin em: Floresta Mágica”. Podcast para crianças no Youtube: “Contos para Sorrir”.




