O Poeta Exato (por Lindolfo Paoliello)

Sempre que me lembro dele, uma aragem estimulante sopra [...]

Era um grupo de empresários importantes visitando em casa um político mineiro a quem ofereciam o apoio de seu poderoso setor. Elogiaram seu o passado, destacaram sua habilidade, homenagearam sua virtude e concluíram que estavam ali para o que desse e viesse. Enfim, fizeram-no ver que ele era o rei da cocada preta. Guardaram para o final um convite: haveria uma grande concentração das lideranças regionais em uma data próxima, e ele estava convidado a comparecer. Então aquele homem, que acabara de receber tudo o que deseja um candidato, respondeu perguntando:

— Posso?

Tive a impressão de estar de novo vivendo esse fato quando ouvi de Affonso Romano de Sant’Anna o comentário de que estava lançando um novo livro. No Rio, naturalmente, onde presidia a Biblioteca Nacional. Então perguntei-lhe displicentemente, por entender que esse seria um procedimento natural, quando lançaria o livro em Minas, sua terra. E o poeta respondeu:

— Haveria interesse?

Affonso Romano de Sant’Anna foi, com certeza, um dos maiores poetas brasileiros de sua geração. Sempre que me lembro dele, uma aragem estimulante sopra e sinto um alívio por esse aceno da persistência de voz inteligente, independente, lúcida: contemporânea.

O versejador exato, tenso, rígido, eficaz que se autodefine:

“Sou o guerreiro,
a palavra a seta,
o objeto a meta.”

E que comprova o texto elétrico, assim, num choque:

“Ave! Garrincha
Ave humana
lépida
discreta
pés de brisa
corpo dúbio
finta certa.”

Intelectual, cidadão que depois de lastimar que no Brasil se continuasse a viver na suposição de que “quem espera sempre alcança”, registra:

“Minha geração se fez de terços e rosários:
— Um terço se exilou
— Um terço se fuzilou
— Um terço desesperou.”

E, no entanto, reconhece:

“Este é o país que pude
que me deram
e ao qual me dei.”

Há que se interessar Minas por um poeta assim. Andamos seriamente necessitados de alguém que nos instigue, bata, quebre o gelo. Minas ausente, na presença. Neblinosa. Trespassável. O vigor da fala de Sant’Anna, quem sabe, quebre esse encanto, ele que se ultrapassava quando ia da palavra ao canto.

Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O país das gambiarras, Nosso alegre gurufim e A rebelião das mal-amadas.

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