Antônio Pipoqueiro (por Aldeir Ferraz)

Em uma época em que o cinema, as praças públicas e o entorno das escolas eram os principais espaços [...]

Em uma época em que o cinema, as praças públicas e o entorno das escolas eram os principais espaços de encontro, o pipoqueiro era a presença certeira que moldava a identidade cultural da comunidade.

Em minhas memórias destaco a figura do Sr. Antônio Pipoqueiro, um Rio-branquense, morador da rua Nova.

O cotidiano de Sr. Antônio e de sua esposa, Dona Aparecida, era marcado por uma rigorosa rotina de preparação que se iniciava nas primeiras horas do dia:

A jornada começava no armazém local para a compra do milho de pipoca, a gordura e a “buraquinha” de sal (expressão da época para designar a embalagem do condimento).

Sua Carrocinha tinha um lampião a gás e sempre adquiria a “camisinha de lampião”, item indispensável para garantir a iluminação da carrocinha durante as vendas noturnas.

A agenda diária era intensa, era um empurra carrinho pra lá, empurra carrinho pra cá, dividindo se na porta das escolas no período diurno, a praça central ao entardecer e a fachada do cinema à noite.

A atividade do Sr. Antônio não era isolada. Nos locais que fazia ponto também era comum a presença do vendedor de laranjas, que utilizava uma máquina manual de manivela para descascar as frutas com rapidez, atendendo à demanda do público.

O preparo da pipoca também compunha a paisagem sonora e sensorial da cidade. O som do milho estourando na panela, frequentemente comparado pelos moradores a um “tiroteio”, sinalizava a proximidade do ponto de venda e atraía a freguesia que fazia questão de consumir os saquinhos de pipoca ainda aquecido.

Para além da atividade comercial, o casal desempenhava um papel ativo no calendário religioso e festivo da comunidade. O Sr. Antônio e Dona Aparecida eram figuras presentes e esperadas nas celebrações dedicadas a São Jorge e a Cosme e Damião, momentos em que a distribuição ou venda de seus produtos somava-se ao sentimento de preservação da fé e da tradição local.

Com o fechamento dos cinemas, a modernização dos centros urbanos e o desaparecimento progressivo das tradicionais carrocinhas de pipoca, a história do Sr. Antônio Pipoqueiro converte-se em um valioso resgate do tempo.

Embora o tempo e as transformações urbanas ameacem apagar as dinâmicas daquela época, o registro de sua trajetória permanece como um testemunho da era de ouro da convivência comunitária nas praças e calçadas brasileiras.

Aldeir Ferraz é Político e Escrito

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