A diplomacia sul-americana conhece bem esse roteiro: posições inabaláveis costumam durar até a próxima conveniência estratégica.
A volta da Venezuela ao Mercosul deixou de ser um delírio ideológico e virou assunto de corredor diplomático. Ainda existe resistência, especialmente na Argentina de Javier Milei. Mas, convenhamos, convicção política no continente frequentemente tem prazo de validade e cotação internacional.
A Venezuela foi suspensa do bloco em 2016, sob a cláusula democrática e por descumprimento de compromissos com o Mercosul. Seu retorno depende do aval de todos os sócios fundadores – Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai.
A próxima cúpula, marcada para 30 de julho, em Assunção, oferece tempo suficiente para as articulações pró-Caracas ganharem musculatura. E já existe, nos bastidores, um plano intermediário: a presença do governo de Delcy Rodriguez como observador no encontro que se aproxima – sem voz, sem voto, mas com cadeira na sala e um pé de volta ao clube.
O detalhe que embaralha o jogo atende pelo nome de Donald Trump. Washington e Caracas voltaram a conversar, restabeleceram relações diplomáticas e a Casa Branca passou a tratar a presidente com pragmatismo político – aquela filosofia internacional segundo a qual princípios são importantes, desde que não atrapalhem interesses.
E aí mora o dilema de Milei.
O presidente argentino construiu a sua política externa sob o guarda-chuva da sintonia com os Estados Unidos. Bater na mesa contra Caracas pode render aplausos domésticos; bater na mesa contra a direção apontada por Washington já é outro esporte.



