O Rio de Janeiro gosta de transformar tudo em cartão-postal – inclusive as próprias prioridades.
Um dos últimos legados de Eduardo Paes na prefeitura (deixou o cargo para concorrer ao governo do estado, em outubro) atende pelo nome de polo cervejeiro da Rua da Carioca. A intenção declarada é revitalizar uma área histórica e importante do centro da cidade. E nisso há consenso: aquela região precisa mesmo de gente, comércio, segurança e vidas circulando além do expediente.
A dúvida está na escolha do combustível. Por que cerveja?
Numa cidade que vende samba para o mundo – e nem precisa de departamento de marketing para isso – soa curioso que a revitalização da tradicional via não tenha sido pensada como um polo cultural ligado justamente ao gênero que se desenvolveu, estruturou e ganhou escala nacional pelas vielas e morros cariocas. O samba ajudou a erguer o Carnaval, movimenta o turismo, produz memória e carrega uma assinatura cultural que nenhuma franquia engarrafada consegue imitar.
Já cerveja… convenhamos… o Rio não sofre exatamente com falta de oferta. Bares existem aos milhares. Alguns excelentes, outros nem tanto, mas todos cumprindo a nobre missão etílica sem precisar de chancela história do poder público.
E não custa lembrar: médicos vivem alertando sobre o consumo frequente de álcool, associado a problemas de saúde e diferentes tipos de câncer. Ninguém aqui propõe uma cruzada moral contra o chope gelado – seria comprar briga perdida. A questão é outra: quando a prefeitura escolhe revitalizar um espaço histórico, ela também escolhe uma narrativa sobre a cidade que deseja promover.
Entre o copo e o pandeiro, o Rio decidiu brindar.
Mas se o Executivo municipal resolver mudar a trilha sonora, segue aqui um lembrete: 2 de dezembro continua sendo o Dia Nacional do Samba – e a Rua da Carioca conhece bem o compasso da própria história.



