O Incendiário e o General (por Glauco Saraiva)

Para cada corpo humano, um espírito é cultivado. Menos para Constantino, que, como por feitiço, tinha [...]

Para cada corpo humano, um espírito é cultivado. Menos para Constantino, que, como por feitiço, tinha que lidar com dois. Tal como aves que voam dormindo, deixando apenas metade do cérebro ligada, sua mente ora estava ao comando de Dion, ora de Walter. Este, um general sem pompa; o outro, um incendiário sem remorso.

Walter anda devagar.

Coloca as ideias em fila, alinha probabilidades, testa frases em voz baixa antes de aceitá-las no papel. Gosta de previsibilidade, de finais que fecham portas para que outras — ou elas mesmas — possam, com calma, ser abertas depois.

Dion entra sem bater.

Derruba a cadeira, abre três torneios mentais ao mesmo tempo, escreve parágrafos que parecem soprados por uma rajada noturna. Não confere: executa. Prefere precipícios.

Onde Walter vê risco, Dion vê intensidade; onde Walter pede mais dados, Dion já pulou, seguindo o primeiro impulso do coração.

Na juventude, Dion dominou — não por força, mas por frequência.

Excesso de ligações, reatividade a elas, analogias surgindo antes que a anterior tivesse terminado de respirar. Uma riqueza — e um cansaço. Dion tem o dom de ver relações invisíveis, mas também deixou Constantino, por anos, com pilhas de começos sem fechamento.

Walter, naquela época, aparecia apenas para assumir os pecados de Dion e tentar reorganizar a casa. Ocasionalmente dirigia o barco, fazendo o mínimo necessário para manter a unidade longe do colapso. Ainda não comandava.

Às vezes, no desespero, tomava as rédeas e impunha seriedade.

Mais por necessidade do que por repressão.

Desde cedo, Constantino se acostumara a pensar entre tabuleiros, cadernos e mesas: no xadrez, calculava consequências; no poker, media riscos; na escrita, extravasava.

Na maturidade, ele entendeu que a vida não se vence apenas por explosões — mas por campanhas longas. Walter se apresentou com clareza para conduzir. A partir daí, a ação adequada passou a ser requisito.

Fichas passaram a ser defendidas tanto quanto empurradas.

Textos só ganharam lugar no mundo quando Walter aceitou passar horas no polimento.

Dion abre espaço demais, às vezes até onde não cabe nada.

Walter chega a tempo, mede as paredes, levanta outras, e tenta fazer daquele excesso um lugar habitável.

À mesa de jogo, Dion sussurra blefes heroicos, ataques improváveis, sacrifícios que fariam um narrador sorrir. Walter segura seu braço no último segundo e pergunta: para quê?

Nos dias mais silenciosos, é Walter governando o ritmo.

Quando a vontade é reinventar tudo, escrever cinco páginas antes do café, responder antes de ouvir a pergunta inteira, Dion escapou da jaula — e a jaula nunca foi feita mesmo para durar.

Sem Dion, ele correria o risco de se tornar apenas alguém muito correto, muito ajustado, muito capaz de explicar por que nada deveria ser feito.

Sem Walter, continuaria empilhando começos: uma ideia sobre a outra, até que tantas direções abertas impedissem qualquer avanço.

A maturidade aprende a reconhecer a sombra de relance, nos desvios, nos esquecimentos, nos atos falhos. Depois lhe dá um nome. Mais tarde, com alguma resistência, oferece uma cadeira à mesa. Afinal, liderar não é mandar em tropas externas, nem negar a si mesmo, mas governar os próprios impulsos sem apagar o que nos torna vivos.

Seria erro grosseiro escolher apenas um. Uma amputação.
Dion arrasta multidões.
Junta gente, histórias, mesas, convites, noites longas.
Faz a vida parecer sempre maior do que o dia seguinte.
Walter aparece quando a sala esvazia.
Quando alguém precisa ficar.
Quando é preciso escolher menos.
Quando a contabilidade emocional se apresenta.
Ele não procura glória.
É o sobrevivente lúcido.
Dion explode mundos.

Walter abraça a terra devastada, recolhe os cacos que ainda cortam e decide o que pode virar nova fundação.

Um é pura vertigem.
O outro, a única possibilidade de prosseguir.

Foi pela raiva nascida das frustrações — e pela atenção aos acontecimentos e suas consequências — que reconheceu a sombra de ambos.

A de Walter acredita já ter identificado o inimigo interno — e passa a persegui-lo com fervor excessivo, movido pela irritação provocada pelo menor desarranjo. É quando a vigilância vira rigidez, quando a autocrítica se fantasia de lucidez e pode se tornar brutal.

A de Dion é mais traiçoeira: sussurra palavras de desintegração em meio às dificuldades.

Walter, na configuração menos saudável, quer açoitar. Dion, na sua, quer oferecer o lombo por vergonha — e por ser essa, naquele momento, a única maneira que encontra de ampliar o caos.

Nenhuma delas é Dion nem Walter.

É o instante em que ambos se perdem. Mas não basta identificar monstros. É preciso não descer tão fundo no abismo a ponto de voltar como outro deles. Nietzsche já alertava para esse cuidado nas disputas externas; vale também para os habitantes internos.

Hoje, Constantino já não escolhe entre os dois.
Há dias em que Dion vence. Outros em que Walter impõe recolher.

Os melhores são aqueles em que nenhum dos dois desaparece: Dion faz um movimento, acende alguma coisa; Walter fica por perto, não para apagar, mas para impedir que tudo vire cinza.

Sempre que possível, deixa Dion chegar primeiro, porque alguma coisa nele anseia por realizar, criar, brincar. Ele precisa do susto, do gesto que ainda não sabe se tem volta. Da adrenalina. Depois chama Walter para fechar o cerco, organizar suprimentos, decidir quais batalhas merecem ser travadas e quais foram só fogos de artifício. Para impedir que o impulso vire destino por distração.

Nem sempre funciona.
Às vezes um fala alto demais. Às vezes o outro demora.

Mas, quando acertam por acaso o passo, Constantino avança: meio caótico, meio disciplinado, ainda com o isqueiro no bolso.

Glauco Saraiva é Escritor.

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