
(Homenagem a Francisco Lopes, in memoriam)
Uma das características mais marcantes das economias estáveis é a clara percepção que a sociedade tem de preço relativo, isto é, do valor de um determinado produto comparativamente a outros.
Nesses países, a alta de preço de algum produto é, para o consumidor, indicativa de que houve alguma mudança nas condições de produção (aumento do custo da matéria-prima, por exemplo) ou nas preferências da população. Diante dessa alta, o consumidor se depara com o dilema momentâneo de adquirir ou não a mercadoria cujo preço se modificou relativamente aos demais.
Qualquer que seja sua decisão, todavia, o sistema de preços terá cumprido seu papel, transmitindo um conteúdo extremamente útil de informações para o consumidor.
Já nos processos inflacionários crônicos, como o do Brasil antes do Plano Real, a noção de preço relativo tende a desaparecer, tanto mais rapidamente quanto maiores forem as taxas de inflação. Com efeito, todos os preços sobem a maior parte do tempo e o fazem de forma errática e com velocidades variáveis, tornando difícil a distinção entre o caro e o barato (quem dentre os baby boomers já não teve essa dúvida?).
Quer dizer, ao invés de sinalizadores das reais condições de produção ou de preferências, os preços refletem tão-somente a corrida da inflação em que uns preços procuram sobrepujar outros, numa remarcação sem fim. O consumidor fica atônito e não consegue extrair do sistema de preços nenhuma informação relevante, em particular, não consegue associar as constantes variações a fatores ligados à oferta e à procura.
Não menos perplexo e confuso fica o produtor que, num ambiente de inflação alta, reduz drasticamente seu acompanhamento e controle sobre o binômio custo-preço. Suas energias voltam-se, em larga medida, para a defesa contra a inflação, já que é nesse campo da economia onde a maior batalha está sendo travada. Para ele, empresário, é muito mais importante cuidar da inflação do que buscar, interna corporis, maior eficiência produtiva ou redução de custos.
Pois bem, com a entrada do Real como novo padrão monetário nacional no governo Fernando Henrique, como reagiram consumidores e produtores em termos dos sistemas de preço e custo?
O consumidor encarou a repentina calmaria com certa desconfiança (não sem razão, a julgar pelas fracassadas experiências passadas de estabilização), posto que só a convivência prolongada com a invariância de preços é que cria expectativas de que a estabilidade é permanente.
Entretanto, ele rapidamente foi percebendo que os preços são uma boa indicação dos valores relativos e passou a distinguir com mais clareza o que era caro e o que era barato. Surpreendeu-se com a nova ordem em termos de transparência. Sentiu-se estimulado a realizar programação orçamentária. Tornou-se mais exigente no acompanhamento dos preços.
O produtor, por seu turno, se deu conta, logo no início da vigência do Real, do descompasso entre seus custos e seus preços e, ato contínuo, concentrou seus esforços no sentido de reestabelecer essa vinculação.
Os olhos do empresário que, natural e forçosamente, se fixavam na indexação e nas quase-moedas, voltaram-se então para o domínio interno da empresa: produção, custo, eficiência, administração, qualidade, competitividade etc.
E não poderia ser diferente: a nova realidade seria implacável com o desperdício, a desorganização e a ineficiência, pois tais desajustes não mais poderiam ser transferidos linearmente para preços, via indexação, como era de praxe. A concorrência voltou a ter papel de destaque no mercado.
De qualquer maneira, no novo regime monetário, tanto consumidores, quanto produtores, se aperceberam, de pronto, das enormes distorções que a desordem inflacionária impunha ao sistema de preços e, sem dúvida, valorizaram sobremaneira a estabilidade recém adquirida.
O Plano Real foi o inestimável legado deixado para o Brasil por Francisco Lopes e outros grandes formuladores e operadores do Plano Real, como Gustavo Franco, André Lara Resende, Eduardo Modiano, Edmar Bacha, Pedro Malan…
Maurício Romão é Ph.D. em Economia pela Universidade de Illinois, Estados Unidos



