O custo da criança não pertencer nos Estados Unidos (por Jessica Gabrielzyk)

São quase dois milhões. Esse é o número estimado de brasileiros que vivem nos Estados Unidos, segundo [...]

São quase dois milhões. Esse é o número estimado de brasileiros que vivem nos Estados Unidos, segundo o Ministério das Relações Exteriores do Brasil em 2023. É o maior destino de emigrantes brasileiros no mundo.

E dentro desses dois milhões, há crianças. Filhos que chegaram novos demais para entender o que estava acontecendo e acordam num país onde o lanche é diferente, a escola é diferente, as brincadeiras são diferentes, e ninguém ainda explicou por quê. Mas quase ninguém pergunta o que as crianças estão carregando.

Quando uma família brasileira chega aos Estados Unidos, os adultos têm um processo de adaptação difícil, mas consciente. Sabem que estão recomeçando, que vão errar o inglês, que o supermercado vai confundir, que o sistema de saúde vai demorar a fazer sentido.

A criança não tem essa consciência. Ela sente.

Sente que os colegas falam de coisas que ela não conhece. Que as referências culturais não fazem sentido. Que em casa é de um jeito e na escola é de outro, e ela não sabe qual dos dois é o certo. É aquele processo que não aparece em choro ou birra, mas na criança que para de levantar a mão na aula onde antes era a primeira, que para de fazer perguntas, que começa a apagar um dos mundos que habita para caber melhor no outro.

E a criança paga por isso.

Os Estados Unidos concentram a maior parte dos brasileiros que emigraram. Florida, Massachusetts e Nova York são os três estados com maior concentração, segundo o Migration Policy Institute. Boston, Miami e Nova York são as cidades com mais brasileiros. São famílias inteiras, não apenas adultos jovens em busca de trabalho. E essas famílias chegam, muitas vezes, sem nenhuma ferramenta cultural para ajudar os filhos a entender onde aterrissaram.

Pertencimento começa no concreto, nas coisas que uma criança consegue apontar e dizer: isso eu conheço.

Um ônibus escolar amarelo. Uma abóbora de Halloween. Um jantar de Thanksgiving. Uma caixa de correio na calçada. Coisas que parecem simples para quem cresceu lá, mas completamente novas para a criança que acabou de chegar.

Livros como My First American Coloring Book: Everyday Life in the U.S. for Little Hands, um livro de colorir com ilustrações do cotidiano americano para crianças a partir dos dois anos, ajudam nessa parte.

Não é só um livro de inglês. É pertencimento.

Quantas crianças brasileiras nos Estados Unidos estão crescendo sem conseguir nomear o que sentem? Sem entender por que se sentem de fora em dois países ao mesmo tempo?

O custo de não pertencer não aparece imediatamente. Aparece mais tarde, no adolescente que tem vergonha do sotaque dos pais e não sabe como explicar de onde é.

A resposta começa cedo. Começa quando a criança ainda tem dois anos e um lápis de cor na mão e alguém do lado explicando que aquilo ali é um ônibus escolar, e que no país onde ela mora agora, é assim que as crianças vão para a escola.

Não é pouca coisa.

Jessica Gabrielzyk é autora de My First American Coloring Book: Everyday Life in the U.S. for Little Hands, Maternity Abroad: Becoming a Mother in a Foreign Land e Parenting Unpacked: Parenting Through the Loss of Self (Amazon, junho de 2026). Brasileira, vive na Suíça e escreve sobre migração, identidade e parentalidade. Membro da SiETAR — Society for Intercultural Education, Training and Research.

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