
O presidente do Banco Francês comentou as potencialidades do Brasil e as oportunidades de investimentos no nosso país e concluiu: “O Brasil tem charme.”
Ah, surpresa! Sempre revela, surpreende, desperta. Só mesmo a surpresa para quebrar a mesmice e o tédio. Vejam vocês: vem de lá um homem de negócios, ainda por cima banqueiro, de quem se espera considerações racionais, e dá este argumento para as perspectivas de um país: “Tem charme.”
Passada a surpresa, vamos entender as coisas como elas são. É francês, o homem. E o francês cultiva o encanto daquilo que o cativa. Que pode estar na gastronomia, na defesa – ou no questionamento-de uma posição política; na delicadeza – e na autenticidade – do acolhimento. O charme é o fino tempero do ritual francês. Dizem que o parisiense é mal-educado com os turistas. Não é por aí. O parisiense simplesmente desconhece quem não cumpre a etiqueta. Querem ver? Uma vez eu quis fazer charme para uma velha senhora, em uma daquelas lojinhas deliciosas que vendem mel e chá, em Paris. Disse: “Bom-dia, madame, como vai”, e pedi, com toda a correção e simpatia possíveis, um mel de todas as flores. Já pensaram? Bom. Na despedida, elogiei a loja, agradeci e ia saindo de mansinho, como quem espera estar escapando ileso de um atrevimento quando ouvi, lá no fundo, a voz da velhinha: “Monsieur.” “Oui, madame”, eu disse. E ela, com o dedinho em riste e um sorriso maroto: “Bon soir.”
Tem charme, o francês. E se ele disse que o Brasil é viável porque tem charme, o que é que nós queremos? Olhem o encanto do crepúsculo em Belo Horizonte, a sedução das praias do Nordeste, a simpatia da baiana, a capacidade de agradar e o modo único que tem o brasileiro de levar a vida. Não é um jeito bacana, autêntico e muito nosso de “savoir vivre”?
É fascinante este país, mas comumente demonstramos não ter com ele identidade. Não é tão encantador o brasileiro quando tem tiradas de humor? É isto: humor é consciência. É a percepção das coisas. Foi preciso vir alguém de fora dizer que o Brasil tem charme. Pois vamos cultivar o nosso charme. Isto é bom marketing.
Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O país das gambiarras, Nosso alegre gurufim e A rebelião das mal-amadas.



