Urgente: vem aí o eleitor sintético! (por Adriano Oliveira)

Não temos mais para onde correr: a Inteligência Artificial (IA) vai dominar o mundo. O debate, cada vez [...]

Não temos mais para onde correr: a Inteligência Artificial (IA) vai dominar o mundo. O debate, cada vez mais agigantado, sobre essa ferramenta está alcançando todos os campos possíveis, e chegou a vez da pesquisa qualitativa. No podcast Café da Manhã, da Folha de São Paulo, bem como em uma matéria publicada pelo próprio jornal, foi abordada a questão do eleitor sintético.

Para quem não acompanhou esse novo debate, esse tipo de eleitor é, na verdade, uma criação de empresas de IA: projeções de comportamentos eleitorais de nichos específicos. Exemplo: eu, candidato a governador, quero entender o que pensa uma mulher da periferia do Recife. A IA, portanto, geraria um “eleitor” com opiniões semelhantes às desse segmento que desejo alcançar e compreender. Feita a explicação, vamos aos nossos argumentos.

Primeiro, é importantíssimo pontuar que não somos contra todas as inovações que a Inteligência Artificial carrega consigo. Inclusive, ela é uma grande facilitadora quando se trata da análise das nossas pesquisas qualitativas na Cenário Inteligência. Porém, acreditamos piamente que uma IA não consegue substituir uma boa pesquisa qualitativa — com destaque para as nossas.

Vocês acreditam, caros leitores, que uma IA pode substituir um sorriso ou um revirar de olhos? Pode substituir um eleitor que desliga a chamada de vídeo porque tem receio de responder sobre o prefeito? Ou, melhor dizendo, pode substituir as complexidades que circundam esse entrevistado? Ora, se fosse tão fácil compreender alguém, Sigmund Freud não teria desenvolvido a psicanálise, nem Susan Sontag seria tão lida por sua profundidade intelectual.

Argumenta-se que determinados segmentos sociais tendem a pensar de forma parecida ou que o eleitor sintético seria um meio mais barato de realizar pesquisas qualitativas. E, por nós, tudo bem se quiserem optar por essa ferramenta. Contudo, saibam que ela não chega perto de um eleitor real — o eleitor com quem conversamos diariamente em nossas entrevistas em profundidade.

Quantas vezes já conversamos com um eleitor apaixonado por Lula, mas que cogitava votar em Flávio Bolsonaro? Ou com eleitores que recebem o Bolsa Família, mas não apoiam o programa e acreditam que ele torna as pessoas preguiçosas? Como o eleitor sintético conseguiria carregar toda essa complexidade?

Dito isso, reiteramos ao leitor: uma IA jamais poderá substituir uma pesquisa qualitativa bem-feita. O eleitor somos nós, e sabemos o quanto somos complexos, contraditórios e, muitas vezes, incoerentes. Como já dizia o sábio Uwe Flick, o método qualitativo também é uma arte. Assim como a Inteligência Artificial nunca substituirá as nuances e subjetividades presentes em um grande livro de literatura, ela também não substituirá o eleitor real que irá às urnas em outubro.

Muitos profissionais do marketing político e das pesquisas eleitorais apresentam tecnologias como se representassem inteligência eleitoral e inovação. Contudo, muitas das conclusões advindas do chamado e barato “eleitor sintético” não resistem sequer a uma simples pesquisa de intenção de voto. Quando alguns pesquisadores e marqueteiros se deparam com um candidato liderando nas pesquisas quantitativas tradicionais, abandonam o discurso do eleitor sintético e seguem agindo como sempre fizeram: atribuindo importância excessiva às pesquisas de intenção de voto na construção da estratégia e da previsão eleitoral.

*Artigo originalmente publicado no Jornal do Commercio

Adriano Oliveira é Cientista Político. Professor da UFPE. Fundador da Cenário Inteligência: Pesquisa Qualitativa & Estratégia. Coautora: Maria Eduarda Oliveira é Graduanda em Ciência Política. Diretora de Pesquisa da Cenário Inteligência.

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