
Li há alguns dias um texto de Hugo Studart que traduz um incômodo silencioso de muitos brasileiros, a forma rasa, repetitiva e, muitas vezes, oportunista com que o período militar é utilizado no debate público, não como objeto de estudo sério, mas como instrumento retórico para justificar erros do presente.
O regime iniciado em 1964 e encerrado em 1985 pertence a um capítulo já concluído da nossa história. Passaram-se mais de quatro décadas, tempo suficiente para análise, aprendizado e amadurecimento institucional. Ainda assim, o que se vê é um uso seletivo desse período, frequentemente descolado de contexto e usado como cortina de fumaça para problemas atuais.
É evidente que houve excessos, como em qualquer período histórico. Houve erros e conflitos de ambos os lados, posteriormente tratados pela anistia ampla, geral e irrestrita, que buscou pacificar o país e permitir a transição institucional. Mas também é inegável que houve reorganização, crescimento econômico e consolidação de estruturas que ajudaram a posicionar o Brasil como potência regional.
O ponto não é romantizar o passado, mas também não aceitar sua distorção superficial. Há sociedades que perderam o controle sobre sua própria narrativa, e pagaram caro por isso.
Os hunos, por exemplo, ficaram marcados quase exclusivamente pela ótica de seus adversários, especialmente os romanos. Sem uma narrativa própria, foram retratados como bárbaros, imagem que atravessou séculos. Quem não conta sua história acaba sendo definido por quem conta.
No Brasil, algo semelhante ocorreu. Durante décadas, a direita abriu mão de disputar a construção da memória histórica, enquanto a esquerda ocupou esse espaço de forma organizada. O resultado é uma visão muitas vezes unilateral, tratada como verdade absoluta.
Hoje, o Brasil enfrenta desafios que nada têm a ver com 1964, corrupção sistêmica, desorganização administrativa e perda de credibilidade institucional. Ainda assim, recorre-se ao passado como explicação para tudo.
A pergunta é simples, até quando vamos discutir o Brasil de ontem para não enfrentar o Brasil de hoje?
Não se constrói futuro com ressentimento seletivo nem com narrativas convenientes.
O Brasil, ao contrário, parece preso a um ciclo em que o passado é constantemente reativado para justificar o presente.
Países maduros encaram sua história, aprendem com ela e seguem adiante.
Talvez tenha chegado a hora de encerrar esse ciclo.
Virar a página não é esquecer. É amadurecer.
E o Brasil já passou da idade de viver de promessas. Vamos em frente!!
Luiz Alberto Cureau Júnior
General do Exército Brasileiro da reserva
Consultor Climático



