Um Belo Horizonte? (por José Emílio)

Belo Horizonte é um lugar que, só pelo nome, traz muita inspiração e a vontade de conhecê-la se faz necessário. Também chamada de [...]

Belo Horizonte é um lugar que, só pelo nome, traz muita inspiração e a vontade de conhecê-la se faz necessário. Também chamada de cidade jardim e com um clima muito ameno ela é bem convidativa para que as suas ruas, avenidas e os seus bairros sejam bastante percorridos e, devidamente, revirados pelo avesso à procura de emoções.

Conhecida também como a capital nacional dos bares e butecos, a cidade traz muito conforto quando o assunto é uma boa comida, uma bebida de responsa, um tira gosto, uma prosa boa e etceteraetal.

A fama da cidade com o seu clima bom é antiga, claro que mudou muito. Por esse motivo várias pessoas vinham de longe para fazer o tratamento respiratório, como aconteceu com o grande artista Noel Rosa, que deixou a boêmia do Rio de Janeiro e veio para Belo Horizonte atrás de respirar bons ares. No princípio a recuperação dele foi satisfatória, mas, morando no bairro da Floresta, ele começou a ter acesso à boêmia daqui, aí complicou um pouco e Noel voltou para o Rio de Janeiro.

Atualmente o pessoal vem para essa cidade por outros motivos: a culinária daqui já atravessou as fronteiras desse país, as questões culturais também, enfim a cidade tornou-se uma grande vitrine em vários aspectos.

Belo Horizonte também teve uma fase muito brilhante no que tange à política, onde vários administradores se destacaram. As classes mais carentes, pela primeira vez na história dessa terra, passaram a ser tratadas com cidadania e respeito, uma coisa muito formidável! Como nem tudo são flores, a sequência de notáveis administrações foi interrompida pois um biônico sentou praça na Prefeitura e nem o nosso amigo Roberto Carvalho, que foi o seu vice, conseguiu aplacar a infâmia.

Aliás esse Prefeito (?) fez uma única obra “genial(?)” na sua passagem por essas bandas: a Praia da Estação, que está aí até hoje trazendo alegria para os seus frequentadores. Ocorre que ele proibiu as pessoas de frequentar a praça em trajes mais à vontade, um pseudo moralista muito bobo e outras coisas mais! Devido à insistência natural dos frequentadores do espaço, ele não pôde fazer nada e quando o carnaval chegou a praia estava bombando, finalmente a nossa cidade ganhou uma praia, a da estação.

Mas a nossa cidade é muito mais que isso e, dentre outras coisas, na questão cultural ela é capaz de deixar outros lugares desse país, mais famosos, nos pés das “havaianas”, e vejam bem: qual é o lugar aqui nesse país que tem um Ballet do nível do Grupo Corpo ou um grupo de Teatro de rua feito o Galpão, sem falarmos no Uakti, admirado no mundo inteiro pela genialidade dos seus instrumentos inusitados e do seu repertório, o Teatro de Bonecos Giramundo… Sem contar com o poderoso Clube da Esquina, que depois de quarenta anos é reconhecido no planeta como um dos maiores acontecimentos musicais do mundo e que ainda semeia muita coisa nova e de boa qualidade.

Belo Horizonte é muito mais ainda, é uma grande porta de entrada e de saída prá quem quer se deslocar pelas Geraes: Cidades Históricas, Circuitos das Águas, a maravilhosa Serra do Cipó, suas densas trilhas e as deliciosas cachoeiras… Claro que não podemos esquecer de um dos maiores museus a céu aberto do mundo, que ocupa uma grande área ao ar livre, o nosso maravilhoso Inhotim que, inclusive, apareceu em destaque esta semana, no maior jornal dos Estados Unidos como sendo um dos principais lugares para ser visitados no mundo esse ano, um trem de doido!

E por falar em trem, também de Belo Horizonte pode- se fazer, talvez, a viagem mais longa e bonita de trem do país, de BH a Vitória, pela Vitória – Minas. O trajeto é muito lindo e gostoso de se fazer, já fiz várias vezes. Ele percorre montanhas, rios, cidades…, desaguando nas praias capixabas para deleite dos mineiros.

Belo Horizonte é quase tudo isso de bom, mas também tem as suas contrariedades. A turma que tenta destruir as coisas belas da cidade, está sempre na ativa e com certa complacência de Órgãos do Governo Estadual, inclusive do atual que autoriza, sem muita vergonha na cara, empresas mineradoras a explorar as nossas montanhas à procura de alguma riqueza alheia. Fora a enxurrada de liminares que essa máfia obtém na maioria das vezes, um grande inferno ambiental!

O grande sábio e Poeta Itabirano, Carlos Drumond de Andrade, vaticinou essa tragédia Belo Horizontina há muitos anos quando escreveu o genial poema: “Triste Horizonte“, onde ele, incomodado pela destruição a que estava sendo submetida a nossa cidade que ele saboreou por muitos anos declarou:

– “Não quero mais visitar e ver a nossa cidade ser destruída!”

Cumpriu a promessa, e além de poeticamente, nunca mais voltou aqui. Como se vê, o nosso Belo Horizonte pode- se tornar muito feio, dependendo da sensibilidade de quem o aprecia.

José Emílio é Engenheiro Sanitarista e Jornalista

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