Sabedorias e Sabedorias (por Vera Helena Castanho)

O voo dos gansos é um daqueles exemplos da natureza que atravessaram décadas porque nos lembra , [...]

O voo dos gansos é um daqueles exemplos da natureza que atravessaram décadas porque nos lembra que existem formas de inteligência muito anteriores às nossas teorias, tecnologias e organizações.

Ao observarmos a natureza, encontramos soluções de adaptação, cooperação, sobrevivência e equilíbrio construídas ao longo de milhões de anos. Não são conhecimentos produzidos em laboratórios nem armazenados em bancos de dados. São expressões da própria vida aprendendo a sustentar a vida.

Durante as migrações sazonais, realizadas ano após ano para garantir alimentação, reprodução e sobrevivência, os gansos percorrem milhares de quilômetros em um voo inteligente que reduz o desgaste individual e favorece a continuidade da jornada coletiva.

Durante longas travessias, os gansos enfrentam mudanças de clima, ventos, distâncias e desafios de sobrevivência. Em uma formação de sabedoria própria, alternam posições, distribuem esforços, compartilham forças e fragilidades e sustentam coletivamente o percurso. Existe ali uma inteligência silenciosa voltada à continuidade da jornada e ao cumprimento de uma missão maior do que cada indivíduo: a preservação da vida da espécie.

Nada é imposto ou permanente. As posições se alternam conforme as circunstâncias e as necessidades do caminho. Não há discursos, teorias ou máquinas operando. Apenas a vida encontrando formas de seguir adiante.

Tenho refletido sobre a velocidade das máquinas construídas pelos homens e colocadas à disposição dos próprios homens. E sobre como a humanidade vem caminhando nesse ritmo acelerado, em que muitas vezes já não há tempo para observar, refletir, compreender e fazer uso pleno da própria inteligência.

Vemos populações, nações, cientistas, organizações e negócios sendo influenciados por discursos incompletos, narrativas sedutoras e resultados superlativos. Não raramente, a vida passa a ser conduzida por aqueles que dominam as máquinas, os sistemas, as regulamentações e os meios de produção de conteúdos questionáveis. As possibilidades parecem ilimitadas.

No entanto, percebemos que a consciência humana nem sempre acompanha esse mesmo ritmo.

Enquanto avançamos na construção de sistemas cada vez mais sofisticados, a natureza continua sustentando silenciosamente uma sabedoria que permanece diante dos nossos olhos.

Não se trata de escolher entre tecnologia e natureza, entre inovação e tradição. Trata-se de lembrar que o potencial do desenvolvimento humano sempre encontrou inspiração na observação atenta da vida.

Talvez uma das tarefas mais importantes do nosso tempo seja justamente esta: ampliar nossas capacidades sem perder a conexão com as fontes de sabedoria que estiveram sempre ao nosso dispor.

A natureza não compete conosco.
Ela apenas continua ensinando.

Porque a ampliação das capacidades humanas não garante, por si só, o desenvolvimento do discernimento, da responsabilidade e da maturidade da consciência.

Participando do mundo corporativo como consultora por décadas, recordo que o voo dos gansos tornou-se uma das metáforas mais utilizadas. Era um material precioso.

Milhares de profissionais ouviram essa história. Eram visíveis as emoções, os reconhecimentos e as identificações despertadas pela reflexão, independente do nível hierárquico ou da maturidade profissional.

Hoje, pergunto-me qual seria o valor de uma metáfora semelhante, novamente inspirada na natureza.

A sabedoria da natureza permanece. Sustenta-se há milhões de anos, atravessando mudanças, crises e transformações.

Mas como está a sabedoria da inteligência humana?
Talvez esta seja uma das perguntas mais relevantes do nosso tempo.

Ampliamos conhecimentos, tecnologias e capacidades em proporções inéditas. No entanto, continuamos desafiados a desenvolver discernimento, responsabilidade e maturidade suficientes para lidar com aquilo que nós mesmos criamos.

A questão nunca foi conhecer a metáfora.
A questão sempre foi aplicá-la.
Conhecimento não é transformação.
Ouvir não é compreender.
Compreender não é praticar.
E praticar não significa, necessariamente, incorporar a aprendizagem à própria maneira de pensar, sentir e agir.

A verdadeira mudança acontece quando o aprendizado sobre a vida alcança as dimensões mais profundas da experiência humana.

Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica

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