
Há momentos em que o maior risco para uma nação não está na força de seus adversários, mas na incapacidade de suas lideranças de compreender o mundo ao redor. Países raramente perdem relevância de uma hora para outra. Primeiro perdem visão estratégica. Depois, capacidade. Por fim, liberdade de decisão.
O mundo voltou a falar a linguagem do poder. A guerra na Ucrânia, os conflitos no Oriente Médio e a corrida por energia, minerais críticos e tecnologia mostram que a geopolítica voltou ao centro das decisões nacionais. Países que reduziram investimentos militares agora procuram recuperar, às pressas, capacidades abandonadas.
E o Brasil?
Somos um país continental, com mais de 8,5 milhões de km², aproximadamente 17 mil quilômetros de fronteiras terrestres, extensa costa atlântica, Amazônia, petróleo, água doce, alimentos e minerais estratégicos. Poucas nações possuem tamanho patrimônio.
A pergunta inevitável é: temos poder suficiente para proteger tudo aquilo que possuímos? Lógico que não!
Nossas Forças Armadas mantêm excelentes quadros profissionais e importantes ilhas de modernidade. Gripen, KC-390, PROSUB, SISFRON e capacidades cibernéticas e espaciais demonstram que competência, conhecimento e tecnologia existem.
O problema é transformar ilhas em continente.
Não existe Defesa consistente construída aos soluços. Caças, submarinos, sistemas antiaéreos, inteligência, mísseis, drones, satélites, guerra eletrônica e estruturas cibernéticas exigem planejamento de décadas, investimentos continuados e previsibilidade orçamentária.
O mesmo ocorre com a Base Industrial de Defesa. Sem encomendas regulares e escala, empresas perdem engenheiros, conhecimento, tecnologia e competitividade. Na emergência, descobre-se que dinheiro compra equipamentos, mas não necessariamente autonomia, disponibilidade ou capacidade de reposição.
Talvez nossa maior fragilidade seja acreditar que, por não termos inimigos declarados, podemos postergar o fortalecimento da Defesa.
É justamente o contrário.
Dissuasão eficiente reduz a possibilidade do confronto porque torna elevado demais o custo de qualquer tentativa de pressão ou agressão.
O Brasil não precisa procurar adversários nem abandonar sua tradição diplomática. Precisa dialogar com todos sem depender excessivamente de ninguém. Diplomacia e poder militar são instrumentos complementares da soberania.
O problema não pertence a um governo, partido ou comandante. A fragilidade brasileira foi construída durante décadas de decisões adiadas e prioridades equivocadas.
Na geopolítica existe uma regra antiga, o espaço que deixamos vazio acaba sendo ocupado por alguém.
O Brasil possui território, recursos, população, conhecimento e indústria para ocupar posição muito mais relevante no sistema internacional.
Falta transformar potencial em poder.
Porque uma grande nação pode escolher não exercer sua força. O que não pode é descobrir, quando precisar dela, que já não a possui.
Luiz Alberto Cureau Júnior
General do Exército Brasileiro da reserva
Consultor Climático



