Quando o Estado falha, outros decidem (Luiz Alberto Cureau Júnior)

O que ocorreu recentemente na Venezuela não deve ser analisado com ingenuidade nem como se fosse um filme de ação. A justificativa formal, combate ao [...]


O que ocorreu recentemente na Venezuela não deve ser analisado com ingenuidade nem como se fosse um filme de ação. A justificativa formal, combate ao narcotráfico e a redes criminosas, é plausível, mas claramente incompleta. A história mostra que ações desse porte raramente se sustentam em um único motivo. Por trás do discurso oficial convivem interesses estratégicos clássicos, como energia, minerais críticos e influência regional.

A Venezuela concentra algumas das maiores reservas de petróleo do planeta e abriga áreas riquíssimas em ouro e minerais estratégicos. O chamado “ouro negro” sempre foi mais do que um recurso econômico, é instrumento de poder. Quando um país reúne riquezas estratégicas, fragilidade institucional e isolamento internacional, cria-se a combinação perfeita para intervenções, explícitas ou disfarçadas, que começam como ações pontuais e podem evoluir para algo mais duradouro.

É nesse contexto que surge uma hipótese incômoda, a possibilidade de a Venezuela caminhar para uma soberania condicionada, uma tutela de fato. Muitos recorrem à analogia com a Coreia do Sul, país onde fui adido militar entre 2016 e 2018, mas ela é enganosa. A Coreia do Sul é um Estado soberano com uma aliança militar formal, que traz benefícios e também ônus relevantes, inclusive a presença permanente de tropas estrangeiras em um contexto histórico e geopolítico muito específico. O risco venezuelano não é esse modelo, e sim outro, o controle externo sobre segurança, receitas estratégicas e decisões-chave sob o argumento de estabilização e combate ao narcotráfico. Quando isso ocorre, a soberania permanece no papel, mas se esvazia na prática.

O paralelo com o Brasil é inevitável. Também temos petróleo em escala relevante, no pré-sal e agora na foz do Amazonas, além de terras raras e minerais essenciais para a economia do século XXI, da transição energética à tecnologia e à indústria de ponta, como a aeronáutica. Soma-se a isso um problema grave: o controle territorial exercido por facções criminosas, que fragiliza o Estado e corrói sua autoridade.

Quem controla esses insumos não controla apenas mercados, influencia cadeias globais e decisões geopolíticas. Isso sempre foi assim. Mudam-se os discursos, não a lógica do poder.

Convém ser direto, o risco não está apenas nos recursos naturais, mas sobretudo na ausência de uma política de Estado consistente, sustentada por uma política séria de Defesa, planejamento de longo prazo e clareza estratégica. País que vive de improviso, com descontinuidade de projetos e ambiguidade externa, convida a pressões. A soberania começa no orçamento previsível e se consolida com instituições fortes e capacidade real de dissuasão.

A lição venezuelana é clara, soberania não pode ser só discurso, é construção diária. E cobra um preço conhecido, planejamento, orçamento e visão estratégica. Quem ignora isso, cedo ou tarde, aprende da forma mais dura.

Luiz Alberto Cureau Júnior
General do Exército Brasileiro da reserva
Consultor climático do instituto Climático VBH

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