Quando o amor dá ordens (por Lindolfo Paoliello)

O humor, para ser humor, ri primeiro de si. [...]

Tanto se fala em ética. “Fulano faltou com a ética”, “Sicrano não tem ética”, “vamos agir de acordo com a ética”. Um dia desses eu acompanhava um visitante estrangeiro quando um amigo meu, brasileiríssimo, saiu-se com esta: “Aí, o cara escorregou na casca da banana”, E o estrangeiro estranhou: “Como é que é?” E ele explicou: “Sabe como é. Faltou com a ética…”

É um caso sério.  Virou, mexeu, a ética dança, quer dizer: entra na dança. Conversando comigo sobre os intermináveis problemas nacionais, um funcionário do governo deixou, candidamente, passar esta. “Se este governo tivesse duas pessoas éticas, duas que fossem, este país seria outra coisa”. E eu, também distraidamente, devolvi: “Então não vai ser muito difícil. Um já existe. É você. Só falta descobrir o outro”.

Estive lendo por estes dias o “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”, de André Comte-Sponville, traduzido por Eduardo Brandão. O autor começa dizendo que não crê que haja utilidade em denunciar os vícios, de que o mundo anda cheio, mas o que o animou foi “trazer um pouco de luz sobre a moral, que anda em falta”.

Logo de início vou informando que ninguém deve se entristecer por ter leve suspeita de não ter nascido ético, e muito menos usar isso como desculpa. Aristóteles já advertia, antes de Cristo, que as virtudes que compõem a ética são adquiridas. “A disposição adquirida de fazer o bem”. Em outras palavras, é o esforço para se portar bem. Não é à-toa que a primeira virtude de que trata o autor do “Pequeno Tratado” é a polidez. Entender que “isso não se faz” precede, de fato, à capacidade de refletir sobre “isso não se deve fazer”. Por isso é que a polidez, insuficiente no adulto, é necessária na criança. Ela é anterior à moral e prepara caminho para que esta venha a existir. A polidez imita a virtude. E a prepara. Da polidez, o precioso livrinho passa para a fidelidade, apresentada como “virtude de memória”. Num mundo em que tudo muda, tudo começa com fidelidade a si mesmo. O reconhecimento de um passado como sendo nosso. E a fidelidade torna-se o amor conservado ao que aconteceu.

Vai por aí o pequeno tratado, falando de grandes virtudes: prudência, temperança, coragem, justiça e até aí não inova, apenas relembra, esclarece. Mas o livro faz a diferença, e conquista, quando sugere procedimentos outros que nem sempre vimos como virtudes. A doçura, por exemplo, coragem sem violência, é uma força em estado de paz. Por isso é uma virtude. E o humor, quem veria nele uma virtude?  Mas é, ao nos preservar da seriedade. Já pensaram nisso? A seriedade do orgulho, da soberba. O humor, para ser humor, ri primeiro de si. Caso contrário é ironia, que ri contra, que só ri dos outros. Daí o fato de a ironia ferir, enquanto o humor faz rir.

Humor, generosidade, tolerância, misericórdia, boa fé, simplicidade… e amor. O último capítulo é sobre o amor. O livro começa pela polidez, que ainda não é moral e termina pelo amor, que já não é mais.  Dever é coerção, moral é um dever, virtude é liberdade, amor é espontaneidade. A virtude não precisa de coerção porque é cultivada, é desejada: um hábito. Sendo assim, não obedece a ordens. Aliás, obedece a uma: virtude é a ordem do amor.

Lindolfo Paoliello é cronista e acaba de lançar novo livro: “A guerra de cada um”, já encontrado na Amazon.

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