Prefeitos elegem governadores? (por Adriano Oliveira)

A preocupação de Almir Vasconcelos (nome fictício) era uma só: “E se eu for para o partido do [...]

A preocupação de Almir Vasconcelos (nome fictício) era uma só: “E se eu for para o partido do governador e ele não for reeleito? Eu me lasco em 2028, quando serei candidato à reeleição”. O prefeito de uma cidade do Nordeste, em busca de recursos para o seu município e preocupado com o futuro político, tentava descobrir comigo quem venceria a eleição para governador do seu estado. Não me abstive de dar a minha opinião com base em pesquisa qualitativa.

Prefeitos importam nas eleições para governador. Mas não cometa o erro de contar apenas quantos prefeitos apoiam o governador candidato à reeleição e quantos estão ao lado de seus adversários. A lógica da disputa estadual — assim como ocorre nas eleições para prefeito e presidente da República — é relativamente simples: governadores bem avaliados tendem a ser reeleitos.

As pesquisas qualitativas (Método SEP) realizadas pela Cenário Inteligência em diferentes estados também identificam outras duas variáveis importantes. A primeira é o sentimento de continuidade. Quando o eleitor percebe que o governante está trabalhando e entregando resultados, reduz-se a disposição para promover uma mudança. A segunda é o que chamo de “consentimento do tempo”. Em muitos casos, o eleitor considera que o governador ainda tem mais quatro anos para fazer mais, concluindo obras, implementando projetos e entregando resultados.

Antes de contabilizar o número de prefeitos que apoiam o governador ou a oposição, é preciso observar essas três variáveis: aprovação da gestão, sentimento de continuidade e percepção de que o governador ainda tem tempo para realizar mais. Quando elas estão presentes, o governador tende a chegar forte à disputa eleitoral. Nessas circunstâncias, os prefeitos passam a ter grande importância. O prefeito aliado transforma-se no principal representante político do governador no município. É ele quem anuncia obras, recursos e investimentos, associando essas conquistas à ação do governo estadual. E o eleitor, mesmo em um contexto de reduzida influência do voto ideológico nas eleições estaduais, costuma valorizar gestores que trabalham, entregam resultados e realizam obras.
Quanto mais prefeitos estiverem ao lado de um governador favorito à reeleição, menos prefeitos estarão disponíveis para seus adversários. Isso cria dificuldades adicionais para a oposição, que passa a contar com menos lideranças locais para organizar agendas, mobilizar apoiadores e ampliar sua presença nos municípios. Em um cenário marcado pelo sentimento de continuidade, o discurso da mudança tende a encontrar maiores obstáculos para prosperar.

Há ainda um aspecto frequentemente ignorado: as pesquisas de intenção de voto influenciam diretamente o comportamento dos prefeitos. Quando o governador lidera as pesquisas, dificilmente os prefeitos abandonam sua base de apoio. Quando deixa de liderar, alguns se afastam, mas muitos permanecem ao seu lado, beneficiando-se da relação institucional com o governo estadual. Por outro lado, quando ocorre uma virada nas pesquisas e o governador passa a liderar a disputa, a tendência é que os prefeitos reforcem sua aproximação. E aqueles que haviam se afastado por acreditar na derrota do governador costumam procurar o caminho de volta.

Essa dinâmica se repete em praticamente todos os estados brasileiros. Por isso, a lógica é simples: prefeitos tendem a apoiar governadores que demonstram competitividade eleitoral porque sabem que, em 2028, precisarão da força política desses governadores para buscar a própria reeleição.

*Artigo originalmente publicado no Jornal do Commercio

Adriano Oliveira é Cientista Político. Professor da UFPE. Fundador da Cenário Inteligência: Pesquisa qualitativa & Estratégia.

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