
Existe um paradoxo na Defesa brasileira que merece reflexão.
Somos capazes de formar militares disciplinados, preparados para liderar, planejar, executar missões complexas e decidir sob pressão, e digo isso por que vários exércitos vem aqui aprender isso. Entretanto, ainda enfrentamos dificuldades para transformar essas mesmas competências em processos permanentes de gestão e desenvolvimento da nossa Base Industrial de Defesa (BID) e das nossas Forças Armadas.
Desde os primeiros dias de formação, o militar aprende que pontualidade, organização, redundância, comunicação objetiva e avaliação após a ação não são detalhes. São fundamentos da eficiência operacional.
Mas por que esses princípios nem sempre se refletem na gestão da Defesa?
Israel compreendeu que a inovação nasce da integração entre necessidades operacionais, universidades, centros de pesquisa e empresas. O conhecimento adquirido em operações retorna rapidamente ao desenvolvimento tecnológico.
A Coreia do Sul transformou planejamento em capacidade produtiva. Com coordenação estatal, encomendas previsíveis e uma estratégia exportadora, consolidou uma indústria capaz de competir internacionalmente.
Os Estados Unidos desenvolveram diferentes modelos de aquisição, buscando equilibrar velocidade, controle, inovação e resultados. A burocracia deve servir à missão, não substituí-la.
A Turquia demonstrou que autonomia tecnológica exige persistência, fortalecimento de fornecedores nacionais, investimentos continuados e uma política industrial orientada por objetivos estratégicos.
E o Brasil?
Temos engenheiros, pesquisadores, empresas reconhecidas internacionalmente e militares altamente qualificados. Não partimos do zero.
O que nos falta é transformar competências isoladas em um sistema integrado e duradouro.
Precisamos avançar em cinco direções ao meu ver:
1. Previsibilidade de programas estratégicos com horizonte de 10 a 15 anos e compromissos orçamentários plurianuais.
2. Integração entre Ministério da Defesa, Forças Armadas, indústria e universidades trabalhando sobre prioridades comuns.
3. Gestão de processos de aquisição orientados por resultados, custos e responsabilidades.
4. Aprendizado das avaliações sistemáticas que transformem erros e acertos em conhecimento institucional.
5. Internacionalização, diplomacia de Defesa integrada à promoção comercial, transferência tecnológica e abertura de mercados.
Não se trata de copiar modelos. Trata-se de compreender por que funcionam e adaptar suas melhores práticas à realidade brasileira.
Uma potência não se constrói com projetos que recomeçam a cada gestão, nem com políticas industriais dependentes de circunstâncias eleitorais.
O Brasil já sabe formar militares. Precisa aprender a transformar a disciplina que ensina em planejamento, o planejamento em capacidade industrial e essa capacidade em poder nacional.
Porque soberania não se declara. Constrói-se.
Luiz Alberto Cureau Júnior
General do Exército Brasileiro da reserva
Consultor em Defesa e Clima



