
Eram as férias de janeiro de 1960, estávamos na Praça São Januário, em Ubá, eu tinha uns 13 ou 14 anos – e a Marcinha, uma garota bonita que vivia indo e vindo do Rio, começou a cantar uma música doce e macia, chamada “Desafinado”. Nascia, para mim, a bossa-nova.
Dias depois, já em Belo Horizonte, eu estava assistindo ao jornal da televisão, (chamava-se “Repórter Esso”) quando Heron Rodrigues, o apresentador, comentou a chegada de um novo ritmo e Silvinha Telles entrou cantando “Chega de Saudade”. Lembro-me bem de que a câmera revezava imagens da cantora e de um aquário, e havia um trecho que dizia: “Pois há menos peixinhos a nadar no mar do que os beijinhos que darei na sua boca…”
A bossa-nova chegou mudando conceitos e posturas. A geração que se formava cresceu ouvindo e cantando a paz, o sol, o amor, educando-se num canto sereno e delicado. Era a Geração da Paz. As turmas que antes se reuniam para brigar sumiram como que por milagre; os jovens se encontraram na música. Com ela emudeceram os remanescentes ultrapassados da “geração da guerra” e, com a música, enfrentaram o regime militar.
Quarenta anos se passaram, foi-se o Tom, foi-se Vinícius. Os líderes de 68, meninos levados que “subvertiam a ordem”, são agora os donos do poder. Seria bom, tão bom, se eles se lembrassem da luz, do sol, do amor da bossa-nova. E que percebessem que assim como o vozeirão era inadmissível para quem cantava uma música gentil e doce, também os conchavos políticos, a corrupção, a miséria e a violência quebram a harmonia de quem quer amar em paz.
Lindolfo Paoliello é cronista e nos próximos dias chega às livrarias seu novo livro: “A guerra de cada um”.



