
Ano novo, vida nova! Quantas vezes já deparamos com essa frase pela vida afora, ou mesmo já a pronunciamos. A verdade é que quando um ano vai se findando muitas pessoas começam a fazer conjecturas, seja no plano material, espiritual ou outros a fim de modificar os seus propósitos de vida perante ao atual comportamento. Para elas as mudanças só terão sentido se acontecerem a partir do próximo ano.
Numa visão meio que freudiana, é como se o ano tivesse vida própria e autonomia para nos trazer felicidade e nós pudéssemos conjurar a infelicidade. O incômodo pela somatória de mais um janeiro na existência, também pode estar implícito nessa possível inquietação.
Parar de fumar, perder uns quilinhos, fazer um curso ou concurso, arranjar um novo amor, dentre outros, são os mais comuns a que as pessoas se apegam e, na maioria das vezes, não conseguem cumprir.
Lili, uma conhecida nossa de longas datas, depois de várias decepções amorosas, por ocasião de uma dessas passagens de ano, declarou em alto e bom som:
− “Para o próximo ano vou ser sincera comigo mesma e procurar o meu tipo ideal e que, para ficar “bem na foto” com as pessoas, sempre reneguei”.
Resolvemos perguntar, por absoluta curiosidade, qual seria esse tipo ideal dela, visto que Lili sempre andou acompanhada, mas mudava de parceiro constantemente, sinal de que algo poderia estar errado, quando ela se expôs:
− “É aquele tipo: careca, barrigudo, de vasto bigode, calça de tergal, camisa de manga comprida pra dentro, cinto, sapatos com cadarço” – disse Lili, cheia de expectativa e gosto.
É, pelo visto Lili está mesmo querendo resolver o seu problema, pois concorrência para esse naipe aí vai ser difícil, imaginou uma amiga que ouvia a conversa. Ao que o nosso famoso gaiato de plantão ao ver a colega, já de fato consumado, descendo as escadas rolantes de uma dessas lojas de departamentos com o seu novo “modelo” a tiracolo astuciou:
− “É, dessa vez Lili pegou pesado literalmente”!
Também nessa questão de mudança de ano, um personagem que aparece frequentemente, é aquele que vem com aquela conversa de que o tempo tá correndo mais que o normal:
− “Nem bem o ano começou e ele já está acabando”, enfim…
Nessa mesma linha, outras pessoas se apegam às questões científicas, metafísicas, ufológicas…, para justificar essa sensação de que o tempo atualmente anda mais acelerado:
− “Esses dias eu li que um cientista alemão provou que o dia não tem mais vinte e quatro horas e sim 23h 56m 04s, que é o dia sideral, por isso o ano está passando mais rápido” – disse um desses apressadinhos da vida.
− “O tempo está realmente andando mais rápido porque a terra está girando em torno do seu eixo imaginário com maior velocidade e as partículas subatômicas vibram numa frequência maior, prova que o planeta já vai a meio caminho da quarta dimensão e…”, disse um ufólogo, já pensando na sua carona sideral.
E essa conversa mole de que o tempo está voando tornou-se um chavão, principalmente quando falta assunto numa roda. A esse respeito, recentemente, tivemos a oportunidade de ouvir uma conversinha entre dois compadres numa cidadezinha bem longe da tormenta, e que foi o bastante para nos inteirarmos desses fatos com capricho diante da sapiência e lucidez da prosa:
− “Ô cumpadre, não sei se já comentaram concê a respeito desse negócio do tempo”?
− “Qualé tempo que cê fala”?
− “É que muita gente da cidade anda muito assustado e queixando que o tempo tá correndo demais, quando eles dão fé o ano já acabou”!
− “É, cê tem razão, já ouvi demais essa ladainha cumpadre! Eles tem de compreender o seguinte: ruim mesmo vai ficar é quando o tempo parar de andar pra eles, aí é que a coisa ficou feia, quando o trem para de andar num tem mais jeito nem de reclamar, não é verdade cumpadre”?
Que o tempo urge não resta a menor dúvida e é uma coisa muito natural. Sobre isso já dizia um grande poeta contemporâneo, com muita propriedade, que:
− “O tempo não para no porto/ Não apita na curva/ Não espera ninguém”.
Quanto à motivação que leva muita gente a esse estresse temporal, parece que o medo está à frente de todas essas convicções, desaguando na (va)idade do ser humano. Nesses casos não custa nada relembrar uma personagem que já habitou alguns dos nossos textos por essa estrada afora, dona Zizinha, e que atualmente já navega por outras estrelas. Quando o assunto tangia pelas bandas do tempo, idade…, ela do alto dos seus oitenta e tantos anos dizia:
− “Nunca me preocupei com isso! Se não fosse alguns contemporâneos que ainda estão por aí e fotografias que os meus descendentes, já na quarta geração, insistem em tirar junto comigo, eu diria pra vocês que estou próxima dos meus trinta e poucos anos de idade”.
São palavras para a nossa salvação!
José Emílio é Engenheiro Sanitarista e Jornalista



